Tédio

O tédio, que eu não conhecia, morreu antes que eu pudesse conhecer.

Eu costumava dizer que não sabia o que é o tédio. Que com tanto a nossa volta para explorar, jamais sentia isso que os outros diziam sentir: a falta do que fazer.

Contudo, no último ano tenho visto mais e mais pessoas falando sobre tédio. Todas no campo da criatividade. Do quanto, para criar, é necessário primeiro esvaziar. Do quanto a nossa atenção sequestrada não deixa nem espaço pra isso.

Esse tédio não parece ser bem o mesmo tédio de antes. Tá mais para ócio criativo. Inclusive, vejo alguns citarem Domenico De Masi. E, olha só, comecei uma iniciação científica sobre exatamente isso, quinze anos atrás. Naquela época, eu costumava dizer que não sabia o que é o tédio, aquele tédio que nada tinha a ver com ócio, aquele tédio que tava mais para uma criança mimada que não valorizava os brinquedos no próprio quarto. Parece que essas crianças não existem mais, roubaram-lhe tanto, que elas esqueceram até mesmo de sentir falta do quanto sentiam falta.

O tédio, que eu não conhecia, morreu antes que eu pudesse conhecer. Sempre achei que seria um encontro impossível esse, tampouco procurei saber onde ele morava.

Só não imaginava que ele se tornaria essa mutação fabricada que os detentores da palavra incentivam nos desavisados.

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