Orelhão

— Alô, é do açougue? … Então por que o boi tá falando?

Ele desligou e se contorceu de rir, encostado no orelhão.

Tentou outro.

— Alô, é da fazenda? … Então por que a galinha tá falando?

Riu de novo, ainda mais alto. Viu uma pessoa do outro lado da rua olhar. Ficou orgulhoso.

— Alô, é da casa do Tomás? … Então vá Tomás no… !

Merecia um prêmio. Pena que ninguém ouviu dessa vez.

Quis arriscar. O dedo foi discando antes da coragem acabar.

— Alô, é da casa da Maria? … Maria você gosta do Hiago?

Falou rápido. Desligou rápido. Rápido demais para ouvir qualquer resposta.

Ficou um segundo parado com o telefone ainda quente na mão. Olhou para os lados, que ninguém tivesse visto o crime vergonhoso que cometeu.

Abaixou a cabeça, colocou as mãos nos bolsos e voltou pra casa respirando pesado.

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