A crucificação de Cristo nos meus 33 anos
Como você comemora aniversários? Festa, bar, bolo em família, viagem com amigos, vai na igreja agradecer a Deus por mais um ano de bençãos?
Hoje eu faço 33 anos e queria comemorar fazendo uma performance da crucificação de Cristo. Uma amiga sugeriu certa vez. Amei a ideia.
A última vez em que comemorei um aniversário, que planejei & festejei, convidando pessoas para estarem comigo nessa data, foi em 2019.
Meu aniversário de 28 anos teve como tema o Retorno de Saturno (mal sabendo que esse ciclo astrológico esfregaria na minha cara não ser apenas uma zuera de aniversário). A única outra vez que festejei assim foi em 2015, tema gótico visto petro.
Comemorações raras devido ao meu histórico sad boy do time que a bad bate hard perto da data de nascimento.
Aposto que você conhece outra pessoa assim, que fica mal no dia do aniversário. Isso se você não for essa pessoa.
Na real, resolvi de vez esse negócio de ficar triste com aniversário lá na época da última comemoração. Se aproximar dos 30 sem ter me jogado pela janela parecia um bom motivo para celebrar. Àquela altura eu já tinha, inclusive, entendido qual o trauma me fez ter aversão a essa data. Xeroque depressiva rolmes.
Só não celebrei com grandes festanças pelos anos seguintes devido aos acontecimentos aleatórios de uma vida irregular. Em cada um estive em uma cidade diferente, com pessoas diferentes. Mas aproveitei como pude.
Fosse "preso" num hostel bebendo com argentinos recém conhecidos, aos 29; comendo cogumelos com amigos íntimos nas montanhas, aos 30; me esbaldando num bolo maravilhoso entre família no interior, aos 31; e... apático, vendo o mar se chocar contra a costa num dia frio, nublado e solitário, aos 32.
Mas que caralhos.
Aposto que Jesus Cristo não se importaria de eu ser crucificado numa festa temática, mas se importava de me ver tão presa fácil a negatividade. Como se não tivesse aprendido porra nenhuma sobre como curtir a vida adoidado.
A depressão bateu diferente em julho de 2023.
Primeiro, porque não imaginava entrar num novo quadro depressivo logo após ter me curado de outro num ritual xamânico há pouco tempo.
Segundo, porque estava desapontado vivendo num ambiente que não estava me fazendo bem, mas continuei insistindo.
Foi a primeira vez que não recebi nenhum abraço de parabéns. Inicialmente, não me deixou triste. Não tinha o direito de ficar triste pela ausência de amigos no contexto que eu mesmo criei. Porém, ao me dar conta disso, me meti num buraco cada vez maior.
A depressão tem dessas, você mesmo se enfia na merda, como se fosse merecedor de todo o sofrimento.
Como de costume, coloquei pra fora meus sentimentos. O texto gigante não tinha pé, nem cabeça. Não servia para quem quer que fosse ler, mas serviu para minha autoterapia.
Refleti sobre ter chegado aos 32 sem saber quem sou, totalmente perdido — mesmo sabendo exatamente o que fazer para não estar. Menos adulto do que era aos 20. Questionando minhas decisões nos últimos anos, escolhas profissionais e não ter um lar. Pensei sobre envelhecer, me tornar maricona e a falta de perspectiva de constituir uma família. E, principalmente, o receio de nunca chegar a alguma conclusão sobre as minhas perturbações.
Motivos para encher a cara parece nunca faltar. Na minha versão da crucificação de Cristo, arregaçaria tanto que a ressaca duraria 3 dias, para depois ressuscitar. E os motivos continuariam a existir.
Mesmo sem conclusões, entendi que é preciso ser mais corajoso para recomeçar aos 30 do que começar aos 20.
Apesar disso, as páginas que escrevi pareceram um desperdício. Uma vez que lhes faltavam leitores.
A validação externa é parte essencial de como me entender nesse mundo. Não me importo que me achem um louco ou babaca, desde que o palhaço seja aplaudido no fim do espetáculo.
Aos 32, me vi irrelevante, sem aplausos.
E era para ser o contrário, não era? Ainda tem gente que orgulhosamente me fala "o cara que largou tudo pra morar na praia". Pois é menina, acredita que esse mesmo cara ficou ainda mais zureta das ideias? Que decepção, morreu de quê? De depressão na praia.
Aos 32, ficou mais perceptível tudo o que perdi em relação ao que ganhei. Perdi prestígio, reconhecimento, amigos, carreira, dinheiro, conforto, diversão e felicidade.
Tudo parte de um pacote que escolhi abdicar sabendo dos riscos, para mergulhar de vez numa jornada que havia começado em 2017 (e a qual ignorei, pois havia escolhido a ciência e remédios para tratar meus transtornos mentais).
Parte do objetivo era entender que PORRA ACONTECE NESSA CABEÇA?
Existia a chance de eu me arrepender de ter desperdiçado a vida em busca de algo inexistente. Mas procurar uma cura para a depressão que me impedia de apreciar a existência sempre pareceu um bom motivo pelo qual se arrepender.
Hoje, tenho (algumas) respostas.
Se minha festa de crucificação de Cristo acontecesse, capaz que tivesse mais gente morta do que viva. Gente que cuspiria no chão ao falar o nome do Nazareno, filho do falso Deus. Eu daria risada, minha performance nada teria a ver com menosprezar o cara, acho ele massa, apesar da blasfêmia saborosa. Mas foi principalmente com esses endiabrados que aprendi e encontrei respostas.
Inclusive, sei que parte do motivo de eu ter me tornado irrelevante para lugares e pessoas é porque estes já não deveriam ser relevantes para mim. Não serviam para a construção de quem eu precisava me tornar.
O cara que eu era quando cheguei aos 32 estava tão perdido. Não que este, que chegou aos 33, seja um exemplo de GPS. Mas este aqui ganhou tantas novas camadas de consciência sobre as aflições nessa cabeça, sobre a mente e o espírito, que nem sequer acredito mais em transtornos mentais. Não como acreditava antes.
Para cada passo nesse entendimento tive que deixar um conceito para trás. Abri mão do ceticismo e me aventurei em procurar respostas nos lugares que meu passado se envergonharia. Uma vez que a ciência deixou de ser meu alicerce, meus olhos e coração se abriram para o que eu não queria enxergar.
Mergulhei ainda mais profundamente no xamanismo.
Me debrucei sobre o esoterismo, ocultismo e práticas espirituais. Revisitei religiões e adentrei novas casas de umbanda, espiritismo, candomblé, santo daime e, claro, a quimbanda.
Me apaixonei pela quimbanda, me entreguei de corpo e alma. E dela fui expulso, pois meu lugar não era em religião nenhuma, mesmo contra minha vontade.
É mole? Passei a vida abominando religião. E quando mudo de ideia e abraço uma, a espiritualidade vem e me fala nã-na-ni-na-não. Você não foi feito pra religiosidade.
Precisava entender outras ordens e escolas, teosofia, espiritualidade livre, espiritualidade cigana.
Conhecer mais da cultura iorubá. Das práticas de bruxaria, alta magia e magia do caos. Métodos, sistemas e disciplinas como numerologia, hermetismo e cabala. Oráculos e divinações, tarot e cartomancia. Radiestesia, ressonância harmônica, ho’oponopono, reiki e kundalini yoga.
E tanto mais.
Alguns achei um saco, outros me fizeram vibrar.
Precisava entender mesmo que superficialmente o máximo de matérias para descobrir o que ressoava em mim, o que funcionava e o que não funcionava para expandir minha consciência.
Várias vezes flertei com o limite de ficar ainda mais deprimido, surtado. Mediunidade e esquizofrenia andam de mãos dadas.
Pensa comigo, um cara que acha esse mundo um grande absurdo ao descobrir que existe muito mais em outros planos e que são tão absurdos quanto, deveria ter motivos de sobra para surtar. Só não se mata porque se matar simplesmente perdeu todo seu apelo. Melhor ir para a academia, a sina do ex-suicida macumbeiro (não que eu esteja indo, mas devia).
Eu estava perdido, infeliz, questionando como viver num mundo em constante mudança negativa. Sem referências e envergonhado da minha situação. Buscando uma nova filosofia para me guiar.
A vida veio avisar que nada seria solucionado enquanto eu não olhasse para a base. Para o meu problema mais básico. Meu desgosto existencial precisava acabar para que todo restante pudesse andar.
Minha nova filosofia de vida é espiritual. O meu futuro e o futuro que eu quero para o mundo é ancestral.
Uma vez que compreendi as interferências externas e invisíveis no meu ser, as metas desse corpo pareceram um tanto insignificantes. Não são, mas pareceram.
Assim como eu, milhões de pessoas passam por esses processos. É tão fácil perceber o quanto a sociedade moderna nos adoece. Sabemos e continuamos fazendo parte, alimentando o mesmo ciclo e incapazes de encontrar os remédios certos.
Sendo que a resposta e a cura sempre estiveram aqui, são sabedorias milenares. Não é a próxima inteligência artificial que vai te ensinar ou melhorar as dores que pertencem a alma.
Eu gostava tanto da ideia de fazer uma versão da crucificação de Cristo aos 33 anos que cheguei a planejar raspar meu cabelo no meio do rolê. Parecia o momento ideal para isso. Dar um fim digno a esse apelido de Jesus que, um dia, há de não fazer mais sentido, basta cortar o cabelo.
Imagina? Bêbado e rodeado de amigos, celebrando minha vida, e fazendo uma performance artística que poucos teriam a chance de executar com tantos significados pessoais. Bicha, eu ia ahazar na crucificação de Cristo.
Há anos eu sabia que a performance não ia mais acontecer, mas não havia abandonado a ideia de raspar as madeixas. No meio do caminho, cogitei entregar a espiritualidade. Não consigo ver um ato maior de entrega, fé e mudança.
Mas, aparentemente, meus ancestrais gostam do meu cabelo assim. Impediram a ideia. O cabelo permanece, pelo menos mais um pouco, assim como o apelido. Não que eu permaneça igual.
Os 32 anos foi a idade mais solitária. Minha fase mais eremita. A idade em que eu perdi muito, e ganhei muito mais.
A idade em que eu mais obtive conhecimento, um conhecimento que eu nunca pensei que precisaria, mas que vou levar comigo para outras vidas.
Antes, ceticamente afoguei minhas perturbações e planejei fazer dos 33 anos um ponto de virada, inclusive matando um apelido para construir uma nova versão de mim.
No entanto, cheguei aos 33 e percebi ter alcançado o objetivo. A transformação veio de dentro para fora, sem precisar cortar o cabelo ou "abandonar Jesus".
Hoje não vai ter crucificação de Cristo.
Não estou rodeado de amigos, não vou encher a cara, não farei performance alguma.
Estou bem tranquilinho, contente, e vou para uma cerimônia religiosa depois da prática diária de yoga e meditação.
Porra, me tornei o cara que comemora indo à igreja agradecer a Deus por mais um ano de bençãos.
Mas, sei lá né, o dia mal começou. Vai que.
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