Uma delicada coleção de ausências (Aline Bei, 2025)

Começando a leitura do terceiro de Aline Bei
Status: Atualmente lendo Read year: 2026
Uma delicada coleção de ausências (Aline Bei, 2025)

Última atualização: 18/02/2026

  • Começando a leitura do terceiro de Aline Bei, a favorita dos escritores nos últimos anos. Gostei dos dois primeiros livros: “O peso do pássaro morto” (2017) e “Pequena coreografia do adeus” (2021).
  • Estava ansioso por essa leitura desde uma feira literária, logo após o lançamento, em que escutei Aline falando do seu processo criativo com personagens femininas com Bruna Dantas Lobato.

Destaques e Anotações

Início:

quando o circo chegou à cidade, aquele pedaço de ter­ra batida onde levantaram a lona finalmente ganhou seu segredo. noite após noite se manteve iluminado, e parecia tão natural naquela paisagem que é como se tivesse crescido depois da chuva, e circo fosse árvore ou coisa que vem da terra.

— está na sua palma. (acaricia) ela é toda atravessada por vazios e impermanências. algumas saudades. muitos ar­rependimentos. (olha para ela) na aldeia onde nasci, os brinquedos das crianças são feitos de um material frágil, de tal modo que ensinam o cuidado ao toque, ou irão se rom­per. eles lembram sua vida, esses brinquedos. as linhas de sua palma parecem uma delicada coleção de ausências. você sempre terá que tomar cuidado com o que toca. até mesmo com o que não está é preciso ter cuidado, pois essas coisas têm presença também. há muita força em suas mãos, Mar­garida, todas as luzes e as sombras. se souber usá-las, terá prosperidade.

O título vem de uma leitura da palma da mão


Frases com letras minúsculas, vírgulas com espaço antes, talvez um excesso de vírgulas. Parágrafos quebrados.


A forma, tão importante quanto o conteúdo


— é o que acontece com os ciganos. quer dizer, não dá pra confiar neles.

Ciganos


Margarida olha para ele como se o homem tives­se jogado algo vivo em seu colo, algo que não se po­de deixar cair ou morrer; depois de um tempo ela apenas assente, muito cansada, coloca as mãos na barriga e diz a si mesma que, de toda forma, em algum momento, ela teria que voltar para casa.
a certa altura da noite, tão silenciosa apesar do rá­dio, o motorista dá seta, para próximo ao acostamento. coloca a mão na coxa de Margarida, você tem como pagar?

AAHHH VAI SE FODER. Consigo imaginar tantas caroneiras que já conheci revirando os olhos agora.


antes de deslizar para o sono, Laura vislumbra uma nudez luminosa.
— vó,
ela chama, parece que irá esquec ˆ -la no momen­to em que Margarida deixar o quarto.

o rapaz tosse antes de recitar o poema, senhoras se abanam com tampas de alumínio e, por Deus, aqui ninguém compreende, quando um poeta está fora de seu quarto, um poema não é nem mesmo um pom­bo bicando eternamente o paralelepípedo, quem de­ra fosse um carro de polícia, enquanto a jovem corre com o sa­patinho rente ao peito — pega ladrão, pega la­drão! — o vendedor grita, mas sua voz logo se mistura a outros pequenos azares ao redor da feira, para enfim se dissolver no silêncio de uma demorada partida de xadrez na mesa da praça.

mão de vaca , ela murmura guardando o dinheiro no sutiã.

Pq cobra livre se é pra falar isso?


na frente do portão laranja, está aquele carro com uma tabuleta no topo escrito
t á x i
e uma letra que falha
t x i
depois retorna
t á x i
e uma porta que se abre, a detrás:

Tô achando esse estilo mais tosco que interessante


a não ser pela menina que dorme a seu lado, as pernas compridas, do tamanho exato de sua ausência

— você não sabe como faz.
— eu sei que precisa usar a língua.
— quer tentar?
— o quê?
— ou você tem medo?
— para com isso, já vai bater o sinal.
— é rapidinho.
— aqui não pode.
— vamos na pedra do rato.
elas foram.
olham para os lados para ver se não tem ninguém olhando e começam a se beijar.
Laura põe as mãos na cintura de Lívia, depois desiste e seus braços pendem ao longo do corpo, quem sabe ficando até maiores do que a língua.
Lívia se afasta.
— você baba muito.
— eu, é?

Ficha técnica:

Título: Uma delicada coleção de ausências
Autor: Aline Bei
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 128
Data da Publicação: 10 de junho de 2025
ISBN 10: 8535942440
ISBN 13: 9788535942446
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