Presságio

É nítido que estou assim por me sentir sozinho. Não por estar sozinho, mas por me sentir sozinho. Mesmo que eu estivesse fora desse quarto e em contato com as pessoas lá fora, acredito que estaria triste mesmo assim.
vista através de uma janela com grade de proteção em padrão losangular mostrando paisagem rural com campo verde, árvores frondosas com flores avermelhadas ao fundo e céu carregado de nuvens
o portal que tem sido meu único contato com o que acontece lá fora

Hoje estou triste. Não foi um dia fácil. Como dias assim têm sido raros há um tempo — tão raros que quase me esqueci do caroço —, tenho prestado bastante atenção a ele — o sentimento —, e ao porquê me sinto assim. Presto atenção ao porquê, como se me aprofundar nas complexidades dos meus sentimentos fosse torná-las remédio, antídoto, ou me tornasse mais forte e orgulhoso do amargo gosto de liberdade que carrego.

Sentado na cama, observei o vento dançando com as árvores e as flores alaranjadas da mais próxima através da janela. Portal com grade e tela de mosquito que tem sido meu único contato com o que acontece fora dessa casa. Deitei no chão e assisti as nuvens passando por ela. Depois me encolhi em posição fetal e vi a poeira debaixo da cama — aquela poeira suja e velha que eu me recusei a limpar quando arrastei a cama de lugar para ganhar mais espaço no meu confinamento. Observei também meu próprio corpo e as cores emaranhadas dentro dele, dentro de mim. Parece um caroço no meu coração — o sentimento. Sinto ele ocupando espaço. Tenho a impressão do meu peito inchar. Agarro com a mão e imagino a forma mais dolorosa de tirá-lo dali. Não que eu queira realmente tira-lo de mim — ainda estou interessado no porquê.

Tentei meditar para ver se conseguia livrar a cabeça dessa coisa que o corpo sente. Não é que minha mente estivesse me perturbando com pensamentos ruins ou quaisquer outras sensações que eu costumava ser tão habituado quando dias assim não eram raros, mas frequentes e garantidos. É o caroço mesmo, esse troço no peito, no coração. É no corpo que a tristeza existe. E na meditação, ao invés de dissolvê-la, fiquei olhando para ela com mais intensidade, como se olhar bastasse. Mas não bastou.

Não é preciso ser um gênio ou letrado para saber por que estou assim. Nem precisaria de tanta atenção da minha parte. Até parece que o óbvio está tão bem enterrado que eu preciso de tamanho esforço para desenterrá-lo, para observá-lo.

É nítido que estou assim por me sentir sozinho. Não por estar sozinho, mas por me sentir sozinho. Mesmo que eu estivesse fora desse quarto e em contato com as pessoas lá fora, acredito que estaria triste mesmo assim. Hoje eu estaria me sentindo sozinho, seja em isolamento, seja no meio da multidão. Gosto muito de estar sozinho, mas não costumo me sentir sozinho, ou solitário, pois a minha própria companhia me agrada. Eu a prefiro muito mais que estar com pessoas que exigem etiqueta. Também não me serve a palavra solitário pois o que sinto não é subjetivo, entende? Já disse que não está na minha mente. O caroço está no meu corpo. Minha tristeza é física e objetiva. E da minha solidão, já conheço tanto, que me sinto pleno, mesmo quando não tenho nada. Exceto em dias como hoje.

Na meditação, também fiz uma oração. Além de pedir coisas boas aos que amo, agradeci pelo que tenho e pedi, meio envergonhado de pedir, para eu não me tornar miserável se eventualmente acontecer da minha própria companhia não bastar. Se a minha própria companhia já não for mais suficiente. Se eu precisar de outro corpo, de outra voz, de outra presença pra não me perder de vez.

Nas reflexões que compartilhei sobre a retrospectiva do meu ano, apaguei alguns parágrafos relacionados a relacionamentos. Receio de não ser interpretado como gostaria, embora eu não tenha certeza sequer se consigo expressar o que sinto sobre esse aspecto da vida. Como posso temer a interpretação de algo que eu mesmo não tenho claro comigo? Talvez essas interpretações que evitei sejam tão óbvias quanto o porquê pelo qual me interesso.

Talvez o caroço que sinto no meu coração não seja qualquer sentimento. Não é tristeza, é medo. Esse de um dia eu deixar de ser o bastante para mim mesmo. Se eu não me preparar agora, como poderei lidar com esse hipotético futuro quando ele, por fim, chegar?

Deixar passar o que sinto e viver pleno com minha própria companhia não parece a melhor resposta se eu estiver apenas adiando o encontro com aquilo que já se anuncia. Se esse caroço, esse sentimento, mais do que tristeza, mais do que medo, tudo isso for um presságio.

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