Orbital (Samantha Harvey, 2025)
As descrições são o coração do livro. A autora transforma observações espaciais em prosa lírica seguindo uma estrutura contada através de órbitas que somente um livro como esse poderia fazer. É um livro de diferentes perspectivas, tal qual estivesse olhando para o objeto de estudo (a Terra, a humanidade) sob diferentes ângulos, como se estivesse no espaço, em órbita. Nenhuma reflexão vem sozinha, nenhuma carrega uma afirmação única com ponto final.
Ele questiona se somos "folhas sopradas pelo vento" ou agentes de mudança. Se explorar o espaço é curiosidade ou ingratidão. Uma resposta: provavelmente somos apenas "algumas pedras lascadas à frente" dos outros animais, fazendo migração disfarçada de conquista.
Gostei da transição do tema solidão para o amor através da arte. O quadro "Las meninas" retorna outras vezes com novas perspectivas de leitura, como todos os temas no livro. Achei memorável os ratos voadores e as listas da Chie (como se fossem a corda que a amarrasse de volta a terra).
Os temas que mais ressoaram em mim: a política moldando a paisagem terrestre, tão visível quanto a gravidade; a companhia como consolação pela nossa banalidade cósmica; a Terra personificada e inseparável de suas correntes de ar, “assim como um rosto não está à parte da expressão que ele faz”; a fotografia de Michael Collins como paradoxo da presença/ausência humana; a solidão cósmica transformada em música; e os maiores clichês astronômicos, que sempre fascinam: as sondas Voyager carregando sons da Terra pela eternidade e o calendário cósmico reduzindo a história humana a "uma breve luzinha que pisca e depois se apaga".
Senti certo descaso com a América do Sul. O Brasil aparece tarde, preguiçoso, entediante. A Amazônia não passa de "bolhas de queimaduras", tanto potencial descartado. Como podem falar da conexão Ásia-Australásia ou Rússia-Alasca, mas ignorar Brasil-África?
- Comecei a leitura desse livro hypado do ano passado (vi ele repetidas vezes nas listas de conhecidos leitores) para a o clube de leitura do Manual do Usuário:

Páginas lidas por dia
Destaques e Anotações
- Achei tão lindo a transição do tema solidão para o amor usando uma análise de arte para isso. Está logo no início do livro.
- Aconteceu uma coisa: me dei conta de estar lendo o livro com a tradução do português de Portugal, não Brasil. As palavras com letras esquisitas, agora fazem mais sentido. Prontamente, troquei pela versão brasileira. Parece um pecado trocar uma tradução brasileira por uma portuguesa, certo? Bom, eu só não esperava ter a impressão de estar lendo um texto menos rebuscado, que um pouco do que eu achava de lindo no estilo da escrita anterior se dissipara. O horror! O horror que eu senti! Estou realmente pensando isso? Isso é lá coisa para um latino-americano pensar? Agora, não consigo continuar a leitura traduzida em português, não importa qual. Preciso consumir da fonte e analisar a escrita em inglês, depois comparar com as duas traduções. Talvez eu escolha uma a partir disso, ou continue lendo em inglês, que é o que parece mais sensato a essa altura.
Título: Orbital
Autora: Samantha Harvey
Tradutor: Adriano Scandolara
Editora: DBA
Páginas: 192
Data da Publicação Original: novembro de 2023 (Jonathan Cape, Reino Unido)
Data da Publicação no Brasil: 2025
ISBN-13: 9786558261056
ISBN-10: 6558261052
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