O Lugar (Annie Ernaux, 2021)
Primeira leitura de 2026
Primeira leitura de 2026.
Leitura rápida.
Senti um peso no final.
Páginas lidas por dia
Destaques e anotações
Escrevo bem devagar. Enquanto me esforço para reconstruir a trama de significados de uma vida, levando em conta acontecimentos e escolhas, tenho a sensação de que vou perdendo, na essência, a figura do meu pai. O plano traçado tende a ocupar todo o espaço, a ideia vai caminhando sozinha. Por outro lado, se me entrego às imagens da memória, vejo meu pai tal como ele era, o sorriso, o modo como caminhava, nós dois no parque de mãos dadas e o carrossel que me enchia de medo. Desse modo, todos os indícios de uma condição partilhada com os outros se tornam, para mim, indiferentes. A cada vez, me esforço para escapar da armadilha do ponto de vista individual.
Ao escrever, caminha-se no limite entre reconstruir um modo de vida em geral tratado como inferior e denunciar a condição alienante que o acompanha. Afinal, essa maneira de viver constituía, para nós, a própria felicidade, mas era também a barreira humilhante de nossa condição (consciência de que "em casa as coisas não estão lá tão bem assim"). Eu gostaria de falar ao mesmo tempo dessa felicidade e de sua condição alienante. Sensação de que fico oscilando de um lado para o outro dessa contradição.
Vários meses se passaram desde o momento em que comecei essa narrativa, em novembro. Levei bastante tempo para conseguir escrever porque não era nada fácil lançar luz sobre fatos esquecidos, talvez fosse mais simples inventar. A memória se mostra resistente. Não podia contar com as reminiscências vindas com o rangido da campainha de uma loja antiga, com o cheiro do melão demasiado maduro, nelas encontro apenas eu mesma, e minhas férias de verão em Y... A cor do céu, os reflexos dos álamos no rio Oise perto dali: não podiam me ensinar nada. Busco a figura do meu pai na maneira como as pessoas se sentam e se entediam nas salas de espera, como falam com seus filhos, como se despedem umas das outras na plataforma da estação de trem. Encontrei em pessoas anônimas vistas não sei onde, que trazem, mesmo sem saber, traços de força ou de humilhação, a realidade esquecida de sua condição.
Um domingo depois da missa, quando eu tinha doze anos, subi com meu pai a grande escadaria da prefeitura. Procuramos a porta da biblioteca municipal. Nunca tínhamos ido lá, eu estava na maior euforia. Não se ouvia nenhum barulho por trás da porta. Mesmo assim, meu pai a empurrou. Estava tudo silencioso, ainda mais do que na igreja, o assoalho estalava e havia aquele cheiro estranho de coisa velha. Dois homens nos observaram chegar de um balcão bem alto que barrava o acesso às estantes. Meu pai deixou que eu falasse: "Gostaríamos de levar alguns livros emprestados". Um dos homens logo respondeu: "Que tipo de livro vocês gostariam de levar?". Em casa não tínhamos pensado que era preciso saber antes aquilo que gostaríamos de ler, poder citar títulos com tanta facilidade quanto dizer os nomes das marcas de biscoitos. Eles acabaram escolhendo os livros por nós, Colomba, de Prosper Merimée, para mim e um romance leve de Maupassant para meu pai. Não voltamos à biblioteca. Foi minha mãe que teve de devolver os livros, provavelmente com atraso.
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Ficha técnica
Título: O Lugar
Autora: Annie Ernaux
Tradutora: Marília Garcia
Editora: Fósforo Editora
Páginas: 72
Data da Publicação Original: 1983 (Gallimard, França)
Data da Publicação no Brasil: 10 de maio de 2021
ISBN-13: 9786589733027
ISBN-10: 6589733027
Título: O Lugar
Autora: Annie Ernaux
Tradutora: Marília Garcia
Editora: Fósforo Editora
Páginas: 72
Data da Publicação Original: 1983 (Gallimard, França)
Data da Publicação no Brasil: 10 de maio de 2021
ISBN-13: 9786589733027
ISBN-10: 6589733027
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