Futuro Ancestral (Ailton Krenak, 2022)

Leitura para a segunda edição do clube de leitura do Manual do Usuário no ano.
Status: Completed Read year: 2026
Futuro Ancestral (Ailton Krenak, 2022)

Última atualização: 17/02/2026



Resumo de Futuro Ancestral

A obra apresenta reflexões de Ailton Krenak, em diferentes eventos, sobre a urgência de rever a relação humana com a natureza, partindo de uma perspectiva ancestral e indígena, organizados em 5 textos por Rita Carelli:

Em “Saudações aos rios”, Krenak defende os rios como seres vivos, ancestrais e portadores de conhecimento, e não apenas recursos para o consumo humano. Ele critica a "irreverência" e a falta de respeito das cidades, que asfixiam e poluem os cursos d'água, tratando-os como esgoto ou potencial energético.

Em “Cartografias para depois do fim”, Krenak defende a necessidade de imaginar narrativas plurais e cartografias afetivas que superem a visão limitada do "capitaloceno" (o mundo dominado pelo capitalismo). Não devemos nos render à narrativa de "fim de mundo", pois ela serve para nos fazer desistir dos sonhos e das memórias da Terra. Em vez de apenas aceitarmos o colapso, devemos buscar as "confluências" de mundos diversos e recuperar a comunhão com a terra, as plantas e os seres invisíveis.

Em “Cidades, pandemias e outras geringonças”, ele reflete sobre como a vida urbana e as tecnologias nos desconectam do corpo da Terra, transformando-nos em consumidores passivos e espectadores. Critica a ideia de que o sofrimento da pandemia ensina algo e aponta a cidade como uma "caixa-preta" que produz pobreza ao isolar as pessoas de seus territórios e autonomias.

Em “Alianças afetivas”, Krenak diferencia o conceito de "cidadania" (um repertório branco/colonial) da "florestania", que nasceu da luta dos povos da floresta. Ele propõe a transição de alianças políticas para alianças afetivas, que reconhecem a alteridade radical e permitem "mundizar" — experimentar outros mundos e cosmovisões. A defesa de um Estado plurinacional que se abra à matriz cultural indígena para evitar o desastre ambiental e social.

Em “O coração no ritmo da terra”, a mensagem foca na educação, defendendo que ela deve ser a produção da pessoa em sua essência, e não a "moldagem" ou "formatação" de indivíduos para o mercado de trabalho ou para um futuro inexistente. Krenak afirma que o futuro é uma ilusão que gera ansiedade; a verdadeira educação ocorre no presente, na fricção com a vida e com a natureza. O objetivo deve ser orientar as crianças para que sejam companheiras umas das outras e aprendam a "colocar o coração no ritmo da terra", valorizando a ancestralidade e o bem viver coletivo.


Conceitos que achei mais interessantes

  1. Florestania: Criado no contexto da luta dos povos da floresta, este conceito se contrapõe à "cidadania". Enquanto a cidadania é um repertório da "pólis" (cidade), a florestania reivindica o direito de viver em comunhão com o "contínuo da mata" e a "fluidez do rio", rejeitando a fragmentação da terra em lotes ou propriedades privadas.
  2. Confluências: Baseado no pensamento de Nêgo Bispo, distingue a convergência política (que busca a igualdade muitas vezes opressora) da confluência, que permite que mundos diversos se afetem sem perder sua alteridade. Confluir é a potência de mundos distintos passarem pelo mesmo lugar sem ficarem presos a uma lógica única.
  3. Alianças Afetivas: Diferente das alianças políticas que exigem igualdade formal, as alianças afetivas reconhecem uma "desigualdade radical" e uma alteridade intrínseca entre os seres. Elas permitem que o sujeito desapareça como entidade política para se tornar apenas uma pessoa dentro de um fluxo capaz de produzir afetos e sentidos com outros seres, humanos ou não.
  4. Tecnologia de Produção de Pobreza: Krenak descreve a urbanização forçada como uma ferramenta estatal para converter pessoas autônomas em pobres. Ao retirar o indivíduo de seu território (onde ele tem água, alimento e autonomia) e jogá-lo em uma periferia urbana onde os recursos estão degradados, o sistema opera uma tecnologia que produz pobreza.
  5. Mundizar: Verbo que expressa a potência de experimentar outros mundos e abrir-se para outras cosmovisões. O "mundizar" permite imaginar pluriversos, onde o encontro com elementos da natureza (como uma montanha) não é uma abstração, mas uma dinâmica de afetos em que a natureza também é sujeito.
  6. Educação Sanitária: crítica à mentalidade que ensina as crianças a terem nojo da terra e a verem o mundo como um "almoxarifado". Esse conceito descreve o processo de isolar a infância da natureza em salas de aula, incutindo a ideia de que o "limpo" é o produto industrializado e o "sujo" é o organismo vivo da Terra.

Páginas lidas por dia


Destaques e Anotações

Primeira frase:

Nesta invocação do tempo ancestral, vejo um grupo de sete ou oito meninos remando numa canoa:

Começa com um primeiro texto falando dos rios como ponto de partida para pensar a ancestralidade. Gosto da ideia deles começarem pequenos nos andes e crescer abocanhando tantos outros.


Saudações aos rios

Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui.

Gosto de pensar que todos aqueles que somos capazes de invocar como devir são nossos companheiros de jornada, mesmo que imemoráveis, já que a passagem do tempo acaba se tornando um ruído em nossa observação sensível do planeta. Mas estamos na Pacha Mama, que não tem fronteiras, então não importa se estamos acima ou abaixo do rio Grande; estamos em todos os lugares, pois em tudo estão os nossos ancestrais, os rios-montanhas, e compartilho com vocês a riqueza incontida que é viver esses presentes.

Pacha Mama


Cartografias para depois do fim

No tal capitaloceno que estamos experimentando não restará nenhum lugar da Terra que não seja como o corpo desse rio, assolado pela lama. Ela alcançará todos os recantos do planeta, assim como os polímeros e os microplásticos alcançam a barriga de cada peixe no oceano. Por que esses animais devem carregar essas substâncias em sua estrutura tão leve, tão bonita? Um especialista no assunto me disse que o microplástico viaja pelo nosso corpo e já pode ser encontrado nos bebês que estão nascendo. Achei isso escandaloso, mas não podemos nos render à narrativa de fim de mundo que tem nos assombrado, porque ela serve para nos fazer desistir dos nossos sonhos, e dentro dos nossos sonhos estão as memórias da Terra e de nossos ancestrais.

Fim do Mundo


Estamos vivendo num mundo onde somos obrigados a mergulhar profundamente na terra para sermos capazes de recriar mundos possíveis. Acontece que, nas narrativas de mundo onde só o humano age, essa centralidade silencia todas as outras presenças. Querem silenciar inclusive os encantados, reduzir a uma mímica isso que seria “espiritar”, suprimir a experiência do corpo em comunhão com a folha, com o líquen e com a água, com o vento e com o fogo, com tudo que ativa nossa potência transcendente e que suplanta a mediocridade a que o humano tem se reduzido. Para mim, isso chega a ser uma ofensa. Os humanos estão aceitando a humilhante condição de consumir a Terra. Os orixás, assim como os ancestrais indígenas e de outras tradições, instituíram mundos onde a gente pudesse experimentar a vida, cantar e dançar, mas parece que a vontade do capital é empobrecer a existência. O capitalismo quer um mundo triste e monótono em que operamos como robôs, e não podemos aceitar isso.

Encantados.

Talvez nem metade das pessoas que lerem esse livro saberão do que se trata os encantados. Acho triste essa passagem tão corrida e sem maiores explicações.


Tem um poeta do povo Kuna, do Panamá, que se chama Cebaldo Inawinapi. Atualmente, ele é professor numa universidade do Porto, em Portugal, mas não cessa de fazer visitas à ilha de Kunayala, onde vive seu povo. Ele conta que o nascimento de uma criança Kuna implica em identificar aquele corpo que chega com uma árvore — assim como os Krenak, eles relacionam o umbigo da criança a uma planta. Ele diz que todos os bosques de Kunayala são formados por pessoas, têm nome, porque cada planta coincide com alguém que nasceu ali. Esse trânsito entre um corpo humano e uma planta pode ocorrer com uma bananeira ou com uma árvore que vive duzentos anos, não importa, o importante é o cordão umbilical ser enterrado no ato de plantar, então criança e planta compartilham o mesmo espírito. Quando João Paulo Barreto fala da concepção do corpo feito de barro na tradição do povo Tukano, do alto rio Negro, também está dizendo que não existe fronteira entre o corpo humano e os outros organismos que estão ao seu redor. Faz um tempo que nos convencemos de que somos essa coisa excelente chamada gente e ficamos sem querer nos espraiar em outros organismos para além dessa sanitária e higiênica figura humana. Essa configuração do corpo acatada hoje por muitos é apenas uma instituição pobre fabricada por uma civilização sem imaginação.

Quando eu falo em adiar o fim do mundo, não é a este mundo em colapso que estou me referindo. Esse tem um esquema tão violento que eu queria mais é que ele desaparecesse à meia-noite de hoje e que amanhã a gente acordasse em um novo. No entanto, efetivamente, estamos atuando no sentido de uma transfiguração, desejando aquilo que o Nêgo Bispo chama de confluências, e não essa exorbitante euforia da monocultura, que reúne os birutas que celebram a necropolítica sobre a vida plural dos povos deste planeta. Ao contrário do que estão fazendo, confluências evoca um contexto de mundos diversos que podem se afetar. É um termo talhado de maneira artesanal e local, por um homem quilombola, um brilhante pensador marginal neste universo colonial, um crítico sempre tranquilo e bem-humorado das tendências políticas.

Mais motivos para ler Nego Bispo


Cidades, pandemias e outras geringonças

“Ailton, a covid nos ensinou alguma coisa?”, e eu respondi: “Por que que você acha que ela deveria nos ensinar algo? A pandemia não vem para ensinar nada, mas para devastar as nossas vidas. Se você está achando que alguém que vem para te matar vai te ensinar algo, só se for a correr ou a se esconder”. Os brancos que me perdoem, mas eu não sei de onde vem essa mentalidade de que o sofrimento ensina alguma coisa. Se ensinasse, os povos da diáspora, que passaram pela tragédia inenarrável da escravidão, estariam sendo premiados no século xxi. Eu não tenho nenhuma simpatia por essa ideia, não quero aprender nada às custas de sofrimento.

Será que eu gostaria de pensar assim?


“Lembrem-se, isso aqui é virtual, é uma tela, nós não estamos conversando diretamente uns com os outros”, pois creio que, entre nossa ação nesse ambiente e o seu resultado, pode haver uma brecha de não entendimento e até mesmo de confusão. Tenho percebido que estou me expondo demais, abusado dessa tecnologia, e observado que ela pode nos induzir a uma grande ilusão de resultado, de eficácia. Você se dedica a esse ambiente por horas a fio e acha que está movendo alguma coisa, mas na verdade podemos ficar ali a vida inteira e não mover nada.

A professora Conceição Evaristo disse uma coisa genial: as pessoas acham mais fácil acabar com o mundo do que acabar com o capitalismo.

Odeio quando usam o termo genial (geralmente com algo que não é genial), mas aqui acho que cabe perfeitamente a palavra:


Eduardo Viveiro de Castro tem um texto chamado “Os involuntários da pátria”, e eu provoco aqui uma ampliação desse enunciado, dizendo que nós estamos virando todos involuntários de um mundo que naturalizou mil traquitanas como extensões nossas. Assim, o tal do progresso vai comandando a gente, e seguimos no piloto automático, devorando o planeta com fúria.

Involuntários da Pátria


Ainda há quem tenha a pachorra de dizer que o Brasil é vanguarda na produção de energia limpa. Eu não sei que história é essa, se você botar um filtro de sangue nas hidrelétricas de Tucuruí, Balbina, Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, ele entope.

Olha o Lula aí


José Mujica, ex-presidente do Uruguai, diz que estamos substituindo a ideia de cidadão pela experiência de consumidor, e assim o mundo passa a ser habitado por clientes — alguns preferenciais.

Mujica


Tem uma frase interessante que é atribuída ao Einstein: “A vida começou aqui na Terra sem os humanos e pode terminar sem nós”. Esse pode é um cuidado lá dele, de não detonar de vez a bomba. Já eu sou mais arrogante e digo que a vida começou sem os humanos e vai acabar sem a gente. Não somos os donos da chave nem seremos os últimos a sair. Aliás, acho antes que seremos postos para fora — por incompetência, inadimplência, abuso e todo tipo de prevaricação em que a gente se meteu em favor da ideia de prolongar nossa própria vida.

Ele soa mais chato do que arrogante. Essa fala me faz sentir até meio niilista:


A urbanização no Brasil é tardia. Ainda nas décadas de 1960 e 1970, havia campanhas para as pessoas saírem do campo e irem para os centros urbanos, o que acarretou um grande êxodo rural. Muita gente saiu da zona rural para liberar a área para o agronegócio e foi passar fome nas cidades. Ainda segundo Viveiros de Castro, o Brasil se especializou na produção de pobres. Nossa tecnologia para produzir pobreza é mais ou menos assim: a gente pega quem pesca e colhe frutos nativos, tira do seu território e joga nas periferias da cidade, onde nunca mais vai poder pegar um peixe para comer, porque o rio que passa no bairro está podre. Se você tira um Yanomami da floresta, onde ele tem água, alimento e autonomia, e bota em Boa Vista, isso é produção de pobreza. Se expulsa o pessoal da Volta Grande do Xingu para fazer uma hidrelétrica, mandando para um beiradão de Altamira, você está convertendo-o em pobre.

Urbanização e pobreza. Gostei dessa de tecnologia para produzir pobreza.


Cidade para mim é Mariana, Ouro Preto, até Dubai. Penso em Itanhaém, com aquele forte que é um convento jesuíta e que reunia pessoas tanto para rezar quanto para atirar, pois em cima daqueles muros altos tinham canhões. Então, a cidade é um dispositivo capaz de promover a religião e um certo pensamento, mas também é munida de armas para expandir o seu domínio. Se a gente tivesse que culpar alguém pelas cidades atuais, para quem apontaríamos os canhões de Itanhaém? Para engenheiros, arquitetos e urbanistas? Para incorporadoras, especuladores imobiliários e empreiteiras? Para vereadores com suas emendas e remendos? O que dita a cara da cidade?

A arquitetura moderna ampliou a máxima de que a civilização precisa de cimento e ferro. Esse é um pensamento que se relaciona com o mundo nos termos de consumo de matérias não renováveis: usou ferro, acabou; usou cimento, acabou. Se você faz um projeto que precisa de cimento, pedra, ferro, vidro e o escambau, isso é a mesma coisa que usar combustível fóssil. Eu não conheço nenhuma montanha que volte a produzir cimento e pedra depois de extraídos do corpo dela. Se a gente devora montanhas e engole o subsolo da Terra para erguer cidades, o que estamos fazendo, como diria Drummond, é animar a maquinação do mundo.

Animar a maquinação do mundo


A cultura sanitarista, que supostamente regula tudo, entra com a seguinte lógica: sanear é urbanizar, urbanizar é sanear. O que me faz pensar em um grupo de jovens médicos ligados às ciências da saúde que produziu um trabalho curioso sobre a pandemia, no qual dizem que esse evento fortalece o autoritarismo, dando licença para os governos ampliarem ainda mais o controle sobre as nossas vidas. Isso me fez imaginar que o planeta inteiro vai virar uma espécie de hospital geral, e que a polícia, em vez de caçar terroristas, vai perseguir quem não está bem sanitarizado. Vai olhar debaixo da unha e, se estiver sujo, matar o cara. Chegaremos a uma distopia em que o que não é cidade, o que não é saneado, o que não é limpinho, a gente elimina do mapa.

Não sei se entendi isso aqui muito bem direito


Eu fui convidado para dialogar com um projeto da Bia Lessa que utiliza tecnologias de realidade virtual. Ela foi ao largo do Paissandu olhar para aquele prédio ocupado por sem-tetos que pegou fogo. (Aliás, só uma cidade consegue produzir um tipo de evento tão macabro como aquele, com um monte de gente dentro de um edifício em chamas.) Pois a Bia se interessou por aquela ruína e acelerou a distopia, botou zumbis lá dentro e levou a coisa até um ponto absurdo, depois entrou transformando, com muitos colaboradores e recursos de arquitetura, engenharia, urbanismo, reciclagem, ambientalismo e ecologia. Botou o Glauber Rocha e os personagens de Terra em transe em cena e produziu uma utopia dentro daquele estrago todo. Eu propus destampar os córregos. Então, usando a experiência virtual, arrancamos o piso do Paissandu (aquele núcleo bandeirante bem no centro da Pauliceia, o que é muito simbólico) e fizemos o córrego que desemboca ali virar uma cascata. Provocamos o surgimento de mata e bichos no largo. Convocamos Hélio Oiticica, com os parangolés e os penetráveis, e arrancamos as paredes dos prédios. Aqueles esqueletos de ferro e concreto ficaram vazados, e a matéria física da cidade foi atravessada por vento, chuva, sol e floresta — porque a vida reclama essa fruição.

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Alianças afetivas

O cancro do capitalismo só admite propriedade privada e é incompatível com qualquer outra perspectiva de uso coletivo da terra. Em nossa disposição de constituir uma florestania, nós não queríamos nem mesmo ter cpf, mas a instauração de um novo direito pressupõe a movimentação de um enorme aparato composto de registros, documentos, certificações, cartórios… O que moveu o encontro desses povos foi o entendimento de que entre eles havia patrões: latifundiários que reclamavam a posse de vastas regiões de floresta, os seringais, onde tanto indígenas quanto não indígenas eram submetidos a condições de trabalho escravo. Uma constelação de povos como os Kaxinawá, os Ashaninka, os Huni Kuin e tantos outros viviam oprimidos por essa situação favorecida pelo capital, na qual um patrão, que nem estava presente (podia estar em São Paulo, em Londres, em qualquer lugar do mundo), explorava a Floresta Amazônica — e suas gentes — por controle remoto. Ao nos insurgirmos para eliminar a figura do patrão, foi possível nos associarmos. A Aliança dos Povos da Floresta nasceu da busca por igualdade nessa experiência política.

Desconhecia o termo florestania. Interessante.


É exatamente o que o pensamento colonial produziu. O antropoceno está acumulando tanto lixo, tanto estrago, que deixou o mundo adoecido. Por isso, apesar de ter escapado da política feita pela pólis, tenho acompanhado com entusiasmo o que está acontecendo no Chile, seguindo um debate que já vem se desenrolando em outros países andinos, desde o Equador e passando pela Bolívia. Estão discutindo ali a refundação da nação a partir de um Estado plurinacional, e Elisa Loncón, uma mulher Mapuche, é a presidente eleita da Assembleia Constituinte — logo no Chile, país historicamente tão autoritário e refratário a qualquer mundialização.

Em que pé será que tá isso?


Mas é preciso estar atento e forte. O senso comum imagina que a democracia é algo que você veste e sai andando — não é. No próprio Chile, quando Salvador Allende era presidente, bombardearam o palácio do governo. Nos Estados Unidos, que são a maior democracia do mundo, um policial bota o joelho no pescoço de um homem negro e o mata asfixiado enquanto o país exporta democracia para Líbano, Iraque, Irã, Afeganistão. Porque a democracia escorre ali: eles têm para dar e vender. Então eu acho que a gente tem que parar de ficar usando as expressões assim de maneira tão folgada. Se tiver uma faixa “democracia, entre”, é bobagem, você vai entrar e levar um soco na cara. Os poetas dizem que a democracia é uma utopia, algo que se busca, não que se consome. É um desafio que uma sociedade determinada exercita como experiência cotidiana. Assim como a ideia de liberdade, de integridade de um povo, a democracia deve ser constantemente construída, ela não tem o dom de se instalar e está sujeita a todo tipo de ataque.

Democracia


O coração no ritmo da terra

Cantando, dançando
Passando em cima do fogo,
Seguimos num contínuo,
No rastro dos nossos ancestrais.

Cantiga que Ailton gosta de repetir


Para começar, o futuro não existe — nós apenas o imaginamos. Dizer que alguma coisa vai acontecer no futuro não exige nada de nós, pois ele é uma ilusão. Então, pode-se depositar tudo ali, como em um jogo de dados. Infelizmente, desde a modernidade, fomos provocados a nos inserir no mundo de maneira competitiva. E essa competitividade, estimulada durante séculos, acabou formando um mundo de jogadores. Se o futuro der certo: “Bingo!”. Mas a verdade é que estamos vivendo cada vez mais a projeção de futuros muito improváveis, embora continuemos preferindo essa mentira ao presente.

Acho que não tem coisa mais legal do que as ideias sobre passado e futuro que existem entre os indígenas e africanos.


Na antroposofia, o primeiro septênio de vida é considerado o período em que a gente ainda está meio anjo, meio humano, não de todo firme na Terra. Antigamente, os povos mais tradicionais diziam que a criança de zero a sete anos estava mais suscetível a morrer porque sua alma ainda não estava bem fixada e podia decolar daqui feito um passarinho. Segundo essas culturas, nesse período não deveríamos sofrer moldagem alguma. Penso nas palavras “molde”, “forma”, “formar”, “formatar” etc., e que aplicar esses conceitos a pessoas no primeiro momento da vida, quando são seres inventivos e cheios de subjetividade, é uma violência muito grande. Já vão podando espíritos que poderiam trazer muita novidade para a Terra. No lugar de produzir um futuro, a gente deveria recepcionar essa inventividade que chega através das novas pessoas. As crianças, em qualquer cultura, são portadoras de boas novas. Em vez de serem pensadas como embalagens vazias que precisam ser preenchidas, entupidas de informação, deveríamos considerar que dali emerge uma criatividade e uma subjetividade capazes de inventar outros mundos — o que é muito mais interessante do que inventar futuros.

Não me lembrava dessa palavra, antroposofia. Tive que pesquisar:

Antroposofia (palavra derivada do grego anthropós, homem, e sophia, sabedoria) é uma filosofia de vida que reúne os pensamentos científico, artístico e espiritual numa unidade e que responde às questões mais profundas do homem moderno sobre si mesmo e sobre suas relações com o universo.

Elaborada no início deste século pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), a Antroposofia é um método de conhecimento que aborda o ser humano em seus níveis físico, vital, anímico e espiritual e, mostra como essas naturezas, absolutamente distintas entre si, atuam em constante inter-relação. Trata-se de uma Ciência que se interessa pelos processos físicos abordados pelas ciências naturais e também por todos aqueles processos que não podem ser materialmente mensuráveis.


Nossa sociabilidade tem que ser repensada para além dos seres humanos, tem que incluir abelhas, tatus, baleias, golfinhos. Meus grandes mestres da vida são uma constelação de seres — humanos e não humanos.

Quando eu tinha oito ou nove anos de idade, estava no quintal, lugar de que gosto muito, e lá estava uma linda égua selvagem que meu irmão tinha ganhado. Ela comia milho enquanto eu limpava o quintal com um rastelo. Enquanto a égua roía os sabugos, passei o rastelo perto dela e, sem querer, a assustei. Ela me deu um coice bem dado, que acertou meu estômago e me fez voar uns três metros. Perdi o fôlego, mas logo me recuperei. E ali, de uma maneira totalmente atemporal, como se fosse um raio, tive uma aula sobre limite e, ao mesmo tempo, compreendi que podemos agir no mundo. Foi uma revelação que me veio como um mantra: “sim, nós podemos muito, mas nem tudo”. Um aprendizado que recebi em fricção com a natureza.

Engraçado que é também um aprendizado que veio com sofrimento, apesar do que ele disse sobre aprender através do sofrimento anteriormente. Será que existem outros aprendizados nesse livro que também vieram com sofrimento?


A presença dos outros seres não apenas se soma à paisagem do lugar que habito, como modifica o mundo. Essa potência de se perceber pertencendo a um todo e podendo modificar o mundo poderia ser uma boa ideia de educação. Não para um tempo e um lugar imaginários, mas para o ponto em que estamos agora.

Um jovem de vinte anos já tem um mundo formatado dentro de si e, quando coloca uma criança nele, passa a agir a partir de sua aspiração de perfeição, daquela ideia de formar um sujeito campeão. Dessa forma, nós começamos, desde cedo, a sugerir para as crianças que elas precisam alcançar um patamar de excelência e ocupar lugares de destaque, pois no topo do pódio só cabe um. No entanto, esse pódio é uma mentira, porque não tem nenhum lugar no mundo onde só cabe um, sempre cabem todos.

Adorei


A educação que conhecemos sempre teve o ímpeto de formatar as pessoas. A sala de aula já sugere isso ao incluir um grupo de crianças de mesma faixa etária sendo abordadas por um adulto, que é o professor. Isso ilustra de maneira muito clara a intervenção externa sobre cada um ali. Perdem sua autonomia e começam a se sentir compelidos a se alinhar com um propósito formatador do pensamento. E se nós sugerirmos que as crianças passem a ter tempo para si mesmas, que a experiência educativa seja convertida em uma proteção desse período para que a pessoa se autoforme, ao invés de ser formatada?

Crianças


A verdade é que uma criança com sete, oito anos de idade já começa a ser treinada para ignorar o meio ambiente. É isolada em uma sala de aula para ser alfabetizada e vai sendo incutida nela, desde cedo, a ideia de uma vida sanitária. (O que é muito contraditório, porque muitas crianças de comunidades urbanas não têm sequer acesso a saneamento básico, mas vão logo sendo ensinadas a ter nojo da terra.) O que eu chamo de educação sanitária é muito anterior às normas impostas pela pandemia de covid-19. É a formação, ao longo de décadas, de uma mentalidade em que uma criança não deve mexer na terra para não sujar as mãos. Que se você arranca uma batata do chão, não deve levar para dentro de casa, pois está suja. (O ideal é pegar uma batata lavada e empacotada no supermercado.) Quando foi que terra virou sujeira? Faz tempo que eu assisto a esse bombardeio sanitário na cabeça das crianças e não vejo nenhum educador questionar isso. Pois para mim isso está diretamente ligado com essa forma de ver o mundo como um almoxarifado e está no cerne da crise ambiental que estamos enfrentando hoje.

Interessante isso de educação sanitária


Aquele menino que fui nunca deixa de estar próximo para conversar, para distrair, aprontar alguma novidade. Ele passa o balaio na beira do rio, sabendo que ali pode ter uma cobra, mas não deixa de passar: isso é coragem.

Sobre coragem


Referências citadas no livro Futuro Ancestral

Obras Escritas e Autores:

José María Arguedas

Citado em Saudação aos rios:

"Às vezes me sinto mais comovido com a presença desses rios do que com outros seres como eu, humanos. Essa aldeia onde estou fica na região leste de Minas Gerais, mais perto do mar do que do Planalto Central do Brasil, e aqui sou envolvido o tempo todo pelo rumor das águas, inclusive de rios subterrâneos, o que me faz pensar no livro Los ríos profundos, do grande escritor peruano José María Arguedas. Nele, o espírito das águas vai cortando vales, montanhas e levando histórias e maravilhas por onde passa. É fascinante a percepção que Arguedas tem daquele rio que corta os Andes, que é capaz de abrir seu caminho pelas pedras com grande força, descendo de maneira avassaladora, sem que ninguém possa navegar seu corpo — pois é um rio bravo. Fui uma vez a São Petersburgo, até a margem do Niva, e conto: esse rio, durante uma parte do ano, congela a tal ponto que é possível passar a cavalo sobre ele. Eu, um sujeito dos trópicos, fiquei pasmo com aquilo…"

Fernando Pessoa

    • Citado em Saudação aos rios:

"Uma vez subi com eles até a cabeceira do rio arrastando uma canoa, pois as águas estavam muito baixas, e tive a surpresa de encontrar lá em cima, no finzinho do Brasil, um quase igarapé com o nome de Tejo, e não pude deixar de pensar em Fernando Pessoa, que também cantou seu rio."

Fernando Pessoa, através do heterônimo Alberto Caeiro, escreveu o poema "O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia", uma reflexão sobre a simplicidade sensorial versus o simbolismo grandioso do rio Tejo. Nele, Caeiro valoriza o rio anônimo da sua aldeia por sua pureza imediata, contrastando com o Tejo, associado a navios, Espanha, mar, América e aspirações mundanas.

Aqui o poema integral:

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai E donde ele vem.
E por isso, porque pertence a menos gente,
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Cebaldo Inawinapi

Poeta do povo Kuna e professor universitário. Citado em Cartografias para depois do fim:

"Tem um poeta do povo Kuna, do Panamá, que se chama Cebaldo Inawinapi. Atualmente, ele é professor numa universidade do Porto, em Portugal, mas não cessa de fazer visitas à ilha de Kunayala, onde vive seu povo. Ele conta que o nascimento de uma criança Kuna implica em identificar aquele corpo que chega com uma árvore — assim como os Krenak, eles relacionam o umbigo da criança a uma planta. Ele diz que todos os bosques de Kunayala são formados por pessoas, têm nome, porque cada planta coincide com alguém que nasceu ali. Esse trânsito entre um corpo humano e uma planta pode ocorrer com uma bananeira ou com uma árvore que vive duzentos anos, não importa, o importante é o cordão umbilical ser enterrado no ato de plantar, então criança e planta compartilham o mesmo espírito."

João Paulo Barreto

Autor que escreve sobre a concepção do corpo na tradição do povo Tukano.

Citado no mesmo parágrafo de Cebaldo Inawinapi:

"Quando João Paulo Barreto fala da concepção do corpo feito de barro na tradição do povo Tukano, do alto rio Negro, também está dizendo que não existe fronteira entre o corpo humano e os outros organismos que estão ao seu redor. Faz um tempo que nos convencemos de que somos essa coisa excelente chamada gente e ficamos sem querer nos espraiar em outros organismos para além dessa sanitária e higiênica figura humana. Essa configuração do corpo acatada hoje por muitos é apenas uma instituição pobre fabricada por uma civilização sem imaginação."

Nêgo Bispo

Pensador quilombola que formulou o conceito de "confluências". Citado em Cartografias para depois do fim:

"[…] No entanto, efetivamente, estamos atuando no sentido de uma transfiguração, desejando aquilo que o Nêgo Bispo chama de confluências, e não essa exorbitante euforia da monocultura, que reúne os birutas que celebram a necropolítica sobre a vida plural dos povos deste planeta. Ao contrário do que estão fazendo, confluências evoca um contexto de mundos diversos que podem se afetar. É um termo talhado de maneira artesanal e local, por um homem quilombola, um brilhante pensador marginal neste universo colonial, um crítico sempre tranquilo e bem-humorado das tendências políticas.

Já a convergência política foi tema na América do Sul nos últimos quarenta ou cinquenta anos. Abraça ideias como a de que o peronismo argentino podia se fundir em uma política moderna, de que o Brasil ia conseguir juntar uma espécie de trabalhismo com o capitalismo e produzir uma nova experiência de gestão política neoliberal que substituísse o colonialismo… Pois Nêgo Bispo escapa dessa gramática dizendo que o que interessa a ele são as confluências, sendo, ao mesmo tempo, capaz de elaborar uma crítica que as articula a convergências e divergências. Sem negar os eventos políticos nem querer escapar do sentido histórico das coisas, ele diz que não precisamos ficar subordinados a essa mesma lógica e procura animar uma perspectiva em que as confluências não dão conta de tudo, mas abrem possibilidades para outros mundos."

Conceição Evaristo

Professora e escritora citada por sua reflexão sobre o capitalismo e o fim do mundo.

Eduardo Viveiro de Castro

Antropólogo, autor do texto "Os involuntários da pátria".

"Eduardo Viveiro de Castro tem um texto chamado “Os involuntários da pátria”, e eu provoco aqui uma ampliação desse enunciado, dizendo que nós estamos virando todos involuntários de um mundo que naturalizou mil traquitanas como extensões nossas. Assim, o tal do progresso vai comandando a gente, e seguimos no piloto automático, devorando o planeta com fúria.

Ainda segundo Viveiros de Castro, o Brasil se especializou na produção de pobres. Nossa tecnologia para produzir pobreza é mais ou menos assim: a gente pega quem pesca e colhe frutos nativos, tira do seu território e joga nas periferias da cidade, onde nunca mais vai poder pegar um peixe para comer, porque o rio que passa no bairro está podre. Se você tira um Yanomami da floresta, onde ele tem água, alimento e autonomia, e bota em Boa Vista, isso é produção de pobreza. Se expulsa o pessoal da Volta Grande do Xingu para fazer uma hidrelétrica, mandando para um beiradão de Altamira, você está convertendo-o em pobre."

Carlos Drummond de Andrade

Citado em relação à "maquinação do mundo", em Cidades, pandemias e outras geringonças:

"Se a gente devora montanhas e engole o subsolo da Terra para erguer cidades, o que estamos fazendo, como diria Drummond, é animar a maquinação do mundo."

Lux Vidal

Antropóloga, autora de trabalho sobre habitações indígenas e habitat equilibrado. Citada em Cidades, pandemias e outras geringonças:

"A antropóloga Lux Vidal escreveu um trabalho muito importante sobre habitações indígenas, no qual relacionava materiais e conceitos que organizam a ideia de habitat equilibrado com o entorno, com a terra, o Sol, a Lua, as estrelas, um habitat que está integrado ao cosmos, diferente desse implante que as cidades viraram no mundo. Aí eu me pergunto: como fazer a floresta existir em nós, em nossas casas, em nossos quintais? Podemos provocar o surgimento de uma experiência de florestania começando por contestar essa ordem urbana sanitária ao dizer: eu vou deixar o meu quintal cheio de mato, quero estudar a gramática dele. Como eu acho no meio do mato um ipê, uma peroba rosa, um jacarandá? E se eu tivesse um buritizeiro no quintal?"

Marilena Chaui

Filósofa e ex-secretária de Cultura, citada por discussões sobre o espaço público e privado. Citada em Cidades, pandemias e outras geringonças:

"Marilena Chaui, quando foi secretária de Cultura de São Paulo, organizou uma discussão sobre o público e o privado no espaço urbano, e, naquela ocasião, ficou muito claro que a cidade moderna não tolera o comum; ao contrário, ela o hostiliza. Falava-se muito do que deveria ser público, do espaço onde a gente poderia se mover, circular, mas onde, cada vez mais, no meio do caminho tinha um caixa eletrônico. A discussão era sobre até que ponto seria permitido ocupar o espaço público enquanto a prefeitura dispunha de licença para impor taxas e cobrar por esses usos. Que “comum” é esse que o tempo inteiro é invadido por algum sujeito que pode se apropriar dele?"

Alberto Acosta

Pensador andino que utiliza termos como "pluriversos".

"Assim eu escapei das parábolas do sindicato e do partido (quando um pacto começar a cobrar tributo, já perdeu o sentido) e fui experimentar a dança das alianças afetivas, que envolve a mim e uma constelação de pessoas e seres na qual eu desapareço: não preciso mais ser uma entidade política, posso ser só uma pessoa dentro de um fluxo capaz de produzir afetos e sentidos. Só assim é possível conjugar o mundizar, esse verbo que expressa a potência de experimentar outros mundos, que se abre para outras cosmovisões e consegue imaginar pluriversos. Esses termos, usados por Alberto Acosta e outros pensadores andinos, evocam a possibilidade de os mundos se afetarem, de experimentar o encontro com a montanha não como uma abstração, mas como uma dinâmica de afetos em que ela não só é sujeito, como também pode ter a iniciativa de abordar quem quer que seja. Esse outro nós possível desconcerta a centralidade do humano, afinal todas as existências não podem ser a partir do enunciado do antropocentrismo que tudo marca, denomina, categoriza e dispõe — inclusive os outros, parecidos, que são considerados quase humanos também."

Chimamanda Ngozi Adichie

Autora citada pela recomendação de evitar o mundo de uma "única narrativa". Citada em O Coração no ritmo da terra:

"Ao focarmos nesse futuro prospectivo acabamos construindo justamente aquilo que Chimamanda Ngozi nos recomenda evitar: um mundo com uma única narrativa. O risco de projetar um futuro assim é muito grande, pois vem embalado em ansiedade, fúria e uma tremenda aceleração do tempo. Olhar sempre para o futuro, e não para o que está ao nosso redor, está diretamente associado ao sofrimento mental que tem assolado tanta gente, inclusive os jovens. É uma experiência que penetra por todos os poros e reflete em nosso estado emocional. O vasto ecossistema do planeta Terra também está sofrendo o estresse dessa aceleração."


  • Bia Lessa: Artista e diretora do projeto que utiliza tecnologias de realidade virtual para transformar ruínas urbanas.
  • Glauber Rocha: Cineasta citado através dos personagens de seu filme Terra em transe no projeto de Bia Lessa.
  • Hélio Oiticica: Artista plástico, mencionado pelos seus "parangolés" e "penetráveis".
  • Glenn Switkes: Cineasta norte-americano que fez filmes sobre a Amazônia e os rios.
  • Caetano Veloso: citado pela canção que diz "A língua é minha pátria / E eu não tenho pátria, tenho mátria".
  • Super-Homem e Lex Luthor: usados como metáfora para a dinâmica das cidades:
    • “A imagem que eu tenho da cidade tem um pouco a ver com o Super-Homem lutando contra Lex Luthor, quando, por conta da criptonita, quanto mais ele se debate, mais o vilão fica forte.“
  • Chapeuzinho Vermelho: Alusão ao "chapéu vermelho" no imaginário infantil sobre a floresta.
    • “Historicamente, a cidade se opõe a esse lugar que a gente chama de floresta, a ponto de todo o imaginário infantil usar um chapéu vermelho e ser ameaçado por um lobo, ou um lobisomem, uma peste, um bicho qualquer que vai pular de dentro da floresta para comer a gente. Inclusive, uma das narrativas a respeito da covid-19 sugere que ela só começou porque havia floresta”

Projetos, Organizações e Movimentos:

  • Aliança dos Povos da Floresta: Movimento criado em 1980 unindo indígenas e seringueiros.
  • Movimento "Rios Vivos": Iniciativa na região amazônica contra a construção de barragens e hidrovias.
  • Zapatistas: Movimento de rebelião na selva Lacandona (México), inspiradores de debates na América Latina.
  • WWF (World Wide Fund for Nature): Citada por um relatório sobre a dependência humana em relação às florestas.
  • Plano Nacional de Educação Escolar Indígena: Programa brasileiro de educação diferenciada em territórios indígenas.
  • União das Nações Indígenas (UNI): Organização que contou com a contribuição do autor.
  • UNESCO: Referenciada pela criação da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço.

Personalidades, Ativistas e Figuras Históricas:

  • Chico Mendes: Líder seringueiro e figura central da Aliança dos Povos da Floresta.
  • Chief Seattle: Líder indígena cuja fala sobre o "vômito" da civilização e o respeito à terra é citada.
  • Davi Kopenawa Yanomami: Liderança indígena e autor, citado por suas narrativas sobre os xapiri e viagens à Europa.
  • Cipassé Xavante: Liderança indígena que acompanhou o autor em viagens internacionais.
  • Elisa Loncón: Mulher Mapuche, presidente da Assembleia Constituinte do Chile.
  • Greta Thunberg: Ativista ambiental sueca, citada por sua mobilização dos jovens.
  • Dalai Lama: Citado como exemplo de educação voltada para a plenitude do ser.
  • Papa Francisco: Mencionado por suas recomendações sobre educação e resgate da ancestralidade.
  • José Mujica: Ex-presidente do Uruguai, citado sobre a substituição do cidadão pelo consumidor.
  • Albert Einstein: Atribuição da frase sobre a vida começar e terminar sem os humanos.
  • Padre Julio Lancellotti: Citado por sua ação contra a arquitetura hostil em São Paulo.
  • Salvador Allende: Ex-presidente do Chile, citado no contexto histórico da democracia chilena.
  • Imperador César: Citado em relação à fundação do modelo de governo romano.
  • Mahatma Gandhi: Citado como inspiração de resistência pacífica.

Conceitos e Fontes de Sabedoria Ancestral:

  • Sumak Kawsay / Bienvivir: Conceito quéchua para "bem viver".
  • Abya Yala: Termo quéchua usado para saudar a terra e o céu da América.
  • Pacha Mama: Conceito andino para a Mãe Terra.
  • Nhemongaraí: Ritual de batismo e nomeação do povo Guarani.
  • Antroposofia: Mencionada em relação ao conceito de "septênios" na infância.
  • Matriz Cultural Indígena e Andina: Fontes de inspiração para um Estado plurinacional e novo constitucionalismo.

Eventos e Diálogos (Fontes do Livro):

  • Festival Seres Rios (2021): Diálogo "políticas cósmicas" com Marisol de la Cadena.
  • Amazônia das Palavras (2021): Aula espetáculo "os rios e as cidades".
  • Flip (2021): Mesa "cartografias para adiar o fim do mundo" com Muniz Sodré.
  • Escola da Cidade (2020): Seminário "espaços para respirar" com Wellington Cançado.
  • Entrevista UOL (2021): Com Fabíola Cidral, Leonardo Sakamoto e Maria Carolina Trevisan.
  • Congresso LIV Virtual (2020): Fala sobre "o tempo e a educação".
  • Eco-92: Conferência ambiental no Rio de Janeiro.

Ficha Técnica

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Título: Futuro ancestral
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 128
Data da Publicação: 02/12/2022
ISBN 10: 6559211541
ISBN 13: 9786559211548

Quem é Ailton Krenak

Página sobre o autor no próprio livro:

Ailton Krenak nasceu em 1953, na região do vale do rio Doce, território do povo Krenak, um lugar cuja ecologia se encontra profundamente afetada pela atividade de extração de minérios. Ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas, organizou a Aliança dos Povos da Floresta, que reúne comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia. É um dos mais destacados líderes do movimento que surgiu durante o grande despertar dos povos indígenas no Brasil, que ocorreu a partir da década de 1970. Contribuiu também para a criação da União das Nações Indígenas (uni). Ailton tem levado a cabo um vasto trabalho educativo e ambientalista como jornalista e através de programas de vídeo e televisivos. A sua luta nas décadas de 1970 e 1980 foi determinante para a conquista do “Capítulo dos índios” na Constituição de 1988, que passou a garantir, pelo menos no papel, os direitos indígenas à cultura autóctone e à terra. É coautor da proposta da Unesco que criou a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço em 2005 e é membro de seu comitê gestor. É comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República, e, em 2016, foi-lhe atribuído o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Também é autor de "Ideias para adiar o fim do mundo" (2019) e "A vida não é útil" (2020), ambos publicados pela Companhia das Letras.
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