A morte do blogueiro

É possível conhecer mais de José lendo seu blog do que lendo seus livros como Saramago.

O que acontece com um blog depois que o autor morre? Será que o blogueiro realmente morre? Pensamentos e questões, tão fúteis, infrutíferas, continuam me ocorrendo.

O blog do Dih está lá, parado no tempo. Até quando? Não sei. Comecei um backup, a fim de segurar o que posso ainda comigo — mas não com o mundo. O do Aaron Swartz também continua online, mesmo 13 anos depois. O Internet Archive e colaboradores voluntários preservam seu legado. Seu blog também virou livro de 370 páginas, manual para anarquistas da informação. O blog do Aaron provavelmente estará online daqui a muitos anos. O do Dih, não.

O blog do José Saramago está com os dias contados. A Sapo Blogs (plataforma que hospeda seu caderno) será descontinuada nos próximos meses. Mesmo depois que ela for desativada, levando “O Caderno” junto, José Saramago continuará existindo. Tão vivo quanto hoje. Ainda que talvez nem saibam que, durante 18 anos, ele teve esse caderno, um blog, online mesmo quando ele já não estava. Apenas nos dois primeiros anos de existência desse blog — ferramenta que ele acreditava fazer as pessoas escreverem mais e pior —, ele esteve vivo para publicar. Após sua morte, uma fundação tomou conta e publicou por mais 4 anos.

Pessoas grandes, como Saramago e Swartz, vivem mais. Claro, eles não eram simples blogueiros.

Se eu morresse hoje, o Cosmoliko duraria apenas enquanto os 10 dólares restantes no Pikapods (plataforma em que hospedo esse blog) sustentassem o servidor. Poucos meses.

Talvez eu devesse criar a página “se eu for atropelado por um caminhão” e pensar a preservação de dados online e a continuidade do meu legado, como Aaron Swartz fazia em 2003. Mas quem sou eu na fila do pão? Após a minha morte, talvez seja importante que esse blog também morra tão cedo alguém perceba minha partida. Diferente do Aaron, jamais permitiria que meus discos rígidos fossem disponibilizados publicamente. Me horroriza a ideia de alguém ler meus rascunhos descartados. (Imagina só, meus filhos publicarem um livro com os rascunhos que exigi que fossem destruídos? Tal como fizeram os filhos de Gabriel García Márquez.)

O que acontece com o leitor depois que o autor de um blog morre? Aquele contato mais frequente, que gosta de trocar e-mails. Ele sente sua falta? Pensa, nossa, quanto tempo aquele cara não posta um texto novo. Passaria por sua cabeça que o autor morreu? O que ele sente?

Estava pesquisando sobre Carlos Drummond de Andrade quando cheguei ao blog de Pablo González Blasco. Ele falava do livro "Cadeira de Balanço" (1992), que finalmente tirou da estante do escritório num momento oportuno para ler. Assim como agora ele estava escrevendo um livro, no momento oportuno, em 2010.

Um clique depois, estou na página principal, absorvendo mais de Pablo. No lado direito, uma foto: grisalho, calvo, bigode. Camisa e gravata, braços cruzados. Parecia advogado, talvez doutor. Teria facilmente identificado-o como doutor em medicina se tivesse lido a descrição logo abaixo. Mas minha atenção estava naquela faixa preta no topo do blog: "Nota de pesar: comunicamos o falecimento do Prof. Dr. Pablo González Blasco".

Nada mais. A nota não passa disso — um anúncio simples, como os que divulgam e-mail de contato ou link para RSS e newsletter. Procurei a nota completa, curioso. Seria um obituário? Qual seria o tom? Quantas palavras usariam? Quem ficou responsável por esse fardo? Mas não havia mais nada. Apenas o anúncio numa faixa preta com a nota de pesar.

A última publicação no blog de Pablo é do fim de setembro de 2025. Ele comenta como foi parar na leitura de ”Os Indiferentes” (1929), de Alberto Moravia. Um indício de que Pablo morreu recentemente. Não faz nem três meses que escreveu que o livro ”Hemos perdido nuestros sentidos?” (2014), de Amedeo Cencini, o impactou e foi o culpado pelo seu interesse em Alberto Moravia, uma de suas últimas leituras. Ao menos, a última que compartilhou em seu blog.

Há um comentário, novembro, numa resenha sobre uma biografia de Tolkien. Diz: “Ainda estás conosco meu amigo Pablo. Permanece a lembrança de teu grande coração.”

Pablo era doutor e tinha interesse em cinema, literatura e medicina. Escreveu livros sobre esses temas. Em 15 minutos, sei tanto de Pablo, este que não publicará mais nenhuma análise em seu blog. Evito pesquisar seu nome. Quero conhecê-lo a partir dele mesmo, não dos outros.

Seria Pablo grande o suficiente para viver mais? Seu currículo invejável diz que sim. Quanto tempo o blog de Pablo permanecerá online? Ele se mantém vivo de alguma forma enquanto resquícios de seus pensamentos e expressões continuam online? Quando o servidor cair, Pablo morrerá mais uma vez?

O legado do autor que permanece vivo em livros é lindo. O que permanece em filmes, sublime. Na música, ah, espetacular. Mas em blogs? Dá para chamar de legado a contribuição de alguém com fofocas e resenhas sobre a cultura pop? No entanto, nada parece tão autêntico e verdadeiro. É possível conhecer mais de José lendo seu blog do que lendo seus livros como Saramago.

Não vou ler os livros do Pablo, tampouco a centena de publicações e trabalhos apresentados em congressos nacionais. Mas talvez eu leia mais publicações em seu blog. José Saramago, por mais inteligente que fosse, talvez não tenha pensado que conheço mais das pessoas que escrevem em blogs — por pior que seja a escrita — do que conferindo seus trabalhos profissionais.

Talvez blogueiros consigam prolongar suas vidas mesmo após a morte, com tamanha personalidade e insignificância, que quando finalmente morrem mais uma vez, quase ninguém percebe ou se dá conta de que o servidor caiu.

Veja, a diferença entre o Pablo vivo e o Pablo morto, para mim — um leitor que acabou de cair em seu blog, que diz tanto sobre ele e me faz conhecê-lo como nenhum conhecido seu poderia me apresentá-lo — não é nenhuma. Não fosse o anúncio, que tentou matá-lo antes do próprio servidor.

Tenho uma vontade de morrer. Sempre tive. Hoje, é mais por curiosidade, não me lembro de ter morrido antes. Morrer pode ser tantas coisas que até me deixa excitado se estiver num dia otimista, crente de que vou passar a entender tudo o que eu não entendia antes e me fazia sofrer. Se eu morrer amanhã e o que eu deixar para trás, como este blog, prolongar um tanto minha vida, qual será a implicação disso na minha morte? Devo garantir ter meus rastros todos cobertos e apagados para garantir uma morte rápida ou aceitar ver meu legado se arrastar embaraçosamente por milésimos antes de definhar, nem sequer fazendo cócegas nos grandes legados de autores que permanecem vivos por centenas de anos?

Acho que posso me poupar de tamanha vergonha. Está decidido: proíbo qualquer um de anunciar meu óbito neste blog. Pagarei as contas em dia, enquanto puder, apenas com o mínimo. Só para não correr o risco de alguém rir do que escrevo, como este texto, sem a possibilidade de estar aqui para rir junto.


Eis que no dia em que publico esse texto, um novo post também surgiu no blog do finado Pablo. Outra pessoa escreveu, claro. Sem relação alguma com ele ou sua morte, apenas mais uma resenha de cinema. Portanto, não vi necessidade de atualizar o texto.

Não é a primeira vez que falo da relação com blogueiros e internet. Se tiver interesse, sugiro a leitura de Aquele amigo que a internet deu.
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