#4 Mpox de Fim de Ano

Uma leitura grosseira sobre de ter sido infectado com Mpox. Filmes que eu vi no final do ano. Mais um texto reclamando de Pluribus que você não precisa ler. Leituras do Contos Completos, Knulp, Heartstopper e Tiny Experiments. E uma longa curadoria de artigos e links do mês de dezembro.
Uma chuva de relampagos da janela
Assistir às chuvas de relâmpagos foi um gostoso passatempo nesse período.

A médica evitava me olhar nos olhos quando disse: "Se você já está se tratando, por que veio até aqui?”. Filha da puta, eu tinha acabado de mostrar meu pau para ela, numa sala com pouca privacidade. Achava que tinha herpes. Ela nem questionou meu autodiagnóstico. Questionou meu motivo de estar ali.

Fui educado: “será que eu não deveria tomar aciclovir em comprimido já que essa é a primeira crise de herpes que eu tenho?”. Ainda evitando o contato visual, respondeu que: “Não, se não terá que tomar comprimidos toda vez. Continue só na pomada”. Imaginei a doença com uma capacidade quase moral de se habituar a remédios como fumantes ao cigarro. Sentada num boteco, batendo cinza.

Antes de sair, deu vontade de dizer que eu não acordei naquele dia ansioso para me exibir pra ela, muito menos de pisar naquele hospital - onde meu tio perdeu o movimento do dedo após darem um ponto errado nele. Mas fiquei quieto. Ela ainda reclamou de eu não ter procurado o posto de saúde. Voltei pra casa me perguntando a mesma coisa.



Felizmente, tenho amigos.

(E que privilégio absurdo é esse, ter amigos médicos numa rede de contatos, quando a saúde está tão precarizada que não existe a menor possibilidade de não sair xingando essa classe de profissionais toda vez que precisa dela. Durante esse processo, eu poderia dar um soco em qualquer um que viesse elogiar o SUS para mim[1]).

"Viciar a doença com comprimidos é mito! Pode tomar o comprimido sim”, assegurou o doutor. Mas gastei dinheiro com o remédio à toa, pois, no dia seguinte, ele me retornou com a opinião de um infectologista. Deveria tratar como suspeita de Mpox. Palavra que soa como ativação do modo bichas perigosas em ação[2]. Pensando bem, tem algo de verdade nisso.

Assim que a suspeita é levantada — com a necessidade de ir até a Unesp em Botucatu, único lugar que faz esse tipo de diagnóstico em toda a região —, abri o jogo para a família e comecei um rígido isolamento. Afinal, Mpox é uma doença contagiosa. Essa cansativa desventura que eu preferia trilhar sozinho arrastou outras pessoas e afetou o ambiente drasticamente: transformei a casa em quarentena e o calendário festivo em calendário médico.



Passei o aniversário da minha mãe no pronto-socorro, repetindo várias vezes, na recepção lotada, que eu estava com suspeita de uma doença contagiosa. Pedindo para que uma ambulância viesse me buscar — já que não me permitiam ir por conta própria.

Levou apenas 11 horas para isso. 14, se considerar até o momento em que fui liberado.

Fiquei sem palavras quando o enfermeiro, com os olhos arregalados, não se esforçou para filtrar: “O que você está fazendo aqui? Achei que você já estava no hospital há horas, o seu leito era o da tarde!".

Eu que te pergunto, cara.

Eu que te pergunto que que eu ainda tô fazendo aqui depois de passar o dia importunando todas as pessoas que eu podia para entender porque eu ainda estava ali e não numa ambulância.

Pensei, mas não perguntei, porque perguntar era inútil.

Acompanhei ele com o celular na mão pedindo um novo leito para a noite, resolvendo uma "situação complicada que aconteceu". (Eufemismo lindo esse, não? "Situação complicada" para descrever o fato de que me esqueceram por 11 horas numa recepção de pronto-socorro...)

Ao menos ele me deu um pão com café. Uma pequena gentileza em meio ao caos burocrático — quando soube que eu estava o dia todo sem comer —, antes de colocar o acesso em minha veia e minha espinha tremer. Argh, odeio agulhas. Precisa mesmo disso? “É o protocolo”. Mesmo protocolo que não permitiu que a ambulância levasse mais pacientes por eu estar com suspeita de uma doença contagiosa. Que parte do ter passado o dia inteiro numa recepção lotada não entenderam?

Deu tempo de ver mais de uma pessoa chegar surtada, fazendo escândalo, e com o tempo virar estátua de pedra, como se a alma tivesse sido levada embora naquele ambiente deprimente. Tenho certeza que alguém morreu enquanto estávamos lá. Havia tantos idosos, os mais calmos, pareciam acostumados com o sofrimento. Me peguei pensando se terei a mesma feição deles quando tiver cabelos brancos. Torço para que não, ou que eu tenha um bom plano de saúde.



Voltei pra casa com um ponto. Jamais imaginei que: (a) faria uma biopsia no pau; (b) que seria a minha primeira biopsia de todas; (c) que tanta gente ia querer fotografá-lo; (d) que eu (ou ele?) me/se tornaria material didático.

Os residentes agora têm com o que estudar. Tomara que aprendam um pouco de empatia no processo. Será que existe correlação entre ver um pau ferido e desenvolver compaixão? Fico imaginando se, em algum congresso futuro, alguém vai olhar para a foto do meu pau doente e pensar "pobre rapaz", em vez de "caso interessante de Mpox, slide 37". Eu deveria ganhar um certificado de contribuição acadêmica por isso: "Pela generosa cessão de imagens genitais em contexto patológico...". Embora duvide que olhar para as minhas partes íntimas em situação tão deplorável fosse o método que Paulo Freire tinha em mente para educação humanizadora.



Ninguém mais entrava em casa. O banheiro ao lado do meu quarto se tornou exclusivo. Uma bacia com quiboa foi colocada no corredor, a fronteira entre o mundo limpo e o contaminado. Ali eu despejava pratos usados das refeições que minha mãe vinha me servir de luvas, como se eu fosse material biológico de risco — o que, tecnicamente, eu era. Ela passava álcool na parede se eu encostava sem perceber, numa coreografia de desinfecção que Kafka aprovaria. A última coisa que eu queria era transformar minha mãe na minha garçonete, minha enfermeira particular, mas foi o que aconteceu.

Droga… Se não fosse por três dias, eu estaria resolvendo essa situação sozinho. Identifiquei os primeiros sintomas logo depois de ter chegado à cidade para aniversários, formatura e Natal. Bem que eu pedi para ser internado, na Unesp, mas não estava debilitado o suficiente a ponto de gastarem seus recursos comigo. Acharam um jeito educado de dizer que eu teria que estragar as comemorações da família e boa sorte fazendo isolamento justamente no fim do ano.

Ceei o Natal sozinho assistindo Esqueceram de Mim no computador. No ano novo vi os fogos de artifício do vizinho pela janela. Derreti durante as ondas de calor no forno que se tornou o quarto. E, mesmo assim, confesso: eu estava aliviado. Para alguém que achava estar com herpes genital — doença chata e incurável. De repente, Mpox parecia quase generoso. Curável, tratável, temporário. Alívio esse que só ia até a página dois. E se eu tivesse infectado alguém com uma doença até recentemente epidêmica? Doença essa que pode matar crianças.

Na manhã em que soube da suspeita de Mpox, enchi meus sobrinhos de beijos. Porque eu sou tio e tinha chegado para isso.

À tarde, virei mensageiro do infectologista: "Se aparecer alguma espinha neles, vocês precisarão levá-los fazer o diagnóstico também".

À noite, minha irmã mandou uma foto da minha sobrinha de 9 anos. Um close do seu nariz com um pontinho vermelho. “Onde eu vou para fazer o teste?”.

A porra da primeira espinha da minha sobrinha! Resolveu nascer exatamente no dia em que eu tive suspeita de Mpox e estava preocupado de tê-la infectado.

“Não teria dado tempo”, me tranquilizou o infectologista.

Ufa, pude voltar a atenção para o meu deformado pau. Aquele que jazia entre minhas coxas nuas, mal podendo esperar para enfrentar os próximos dias.

Quase lhe dei um cigarro e um pedido de desculpas.


footnotes:


  1. VIVA O SUS! EU AMO O SUS! Que fique claro para qualquer arrombado que acha que a gente não pode criticar o sistema público de saúde como se ele fosse perfeito - que não é, tá longe de ser. A saúde precisa mais de investimento do que gente papagaiando o quanto o Brasil é modelo. ↩︎

  2. Sinto muito se você for hétero e não entender. Acho que fiz uma boa piada aqui. ↩︎


Se eu demorasse mais um dia para enviar essa newsletter, seria capaz de interromper esse projeto porque, na minha cabeça, já não faria mais sentido com mais de um mês de atraso.

Demorei tanto para terminar e enviar essa edição por conta desse texto logo acima, que venho escrevendo desde o Natal e já passou por diversas versões completamente diferentes.

Inicialmente, era reflexivo e deprimido falando sobre como eu não gosto do Natal. Então virou um grande relato sobre as experiências nos hospitais. Depois uma grande piada para rir de mim mesmo. No fim, joguei fora uns 70% do que escrevi e nasceu essa grosseria aí que espero que você tenha lido. Agradeço a Ana Sara que leu essa versão e falou para eu publicar sem nenhuma alteração.

Talvez eu devesse abolir esses textos, mantê-los separados do Fragmentos Periódicos a fim de garantir a constância e foco somente no consumo… É, talvez eu devesse fazer isso.

📝 O mês de Dezembro no Cosmoliko

Caso você não tenha visto, esse mês, eu:

  • Publiquei as edições #2 e #3 do Fragmentos Periódicos, baseados no mês de novembro.
  • Também publiquei o texto Alvorada, numa madrugada em que desisti de dormir.

🎬 Filmes

Na primeira metade do mês, fiquei hospedado na casa de um amigo muito empolgado por ter companhia para assistir filme de terror, já que sua mulher não gosta.

Das opções disponíveis no streaming dele que eu ainda não havia visto, sobraram duas grandes porcarias que não desejo a ninguém: The Watchers (2024, Ishana Night Shyamalan) ★ e Until Dawn (2025, David F. Sandberg) ★. Bem que eu comentei que se tratando de um Shyamalan na direção, ou a gente amaria ou odiaria o filme. Só não sei se eu vou querer ver outro da filha do M. Night para dar a sorte de amar. Until Dawn, vou nem comentar, passem longe.

Na terceira noite, arrastei ele comigo para o cinema - não conseguiria suportar mais uma noite de filme ruim. Vimos Bugonia (2025, Yorgos Lanthimos) ★★★★, que entrou para a minha lista de favoritos de 2025.

Na quarta noite, insisti para ele baixar o Stremio, loguei minha conta e mostrei como a vida pode ser bela sem Netflix, Prime Video... essas porcarias todas. Para não perder tempo escolhendo, coloquei o divertido Ready or Not (2019, Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett) ★★★★ - vi que sairá a continuação em breve e não me importava de ver esse filme pela terceira vez.

Antes de eu ir embora, ainda vimos o terror canino Good Boy (2025, Ben Leonberg) ★★★½, que ganha a gente pelo protagonista e pela criatividade. Meus amigos também colocaram o fabuloso curta Meu Amigo Nietzche (2012, Fáuston da Silva) ★★★★½ ❤️ para assistir, foi bom relembrar essa obra depois de tantos anos.

A segunda metade do mês foi uma mistura de querer correr contra o tempo para ver filmes incríveis de 2025 que ainda me faltavam e garantir uma cobertura maior para o meu top do ano. Mas também foi eu em isolamento dentro de um quarto quente, vendo filmes leves para aguentar a fase.

Dos filmes mais cotados que ainda me faltavam, vi:

Valor Sentimental (2025, Joachim Trier) ★★★★½ ❤️. Agente Secreto que se cuide, pois vai ser treta com Valor Sentimental no Oscar. Fiquei em dúvida se gostei mais que Sorry, baby (2025, Eva Victor) ★★★★½ ❤️, um dos meus favoritos do ano. Acabei considerando que sim, filmaço.

Morra, Amor (2025, Lynne Ramsay) ★★★½. Que me fez perceber que não lembro absolutamente nada do livro que li uns 4 anos atrás. Talvez seja mais difícil lembrar de cenas psicóticas via literatura, só lembro do confuso fluxo de pensamento constante.

Sem Outra Escolha (2025, Park Chan-wook) ★★★★. Eu super acreditei que os imprevistos desse filme levariam ao fim do capitalismo, mentira, só da empresa mesmo. Bobinho, eu.

Sonhos de Trem (2025, Clint Bentley) ★★★★. Que fotografia linda. Daqueles filmes que não se pode assistir com quem não curte um drama ou quando você é facilmente afetado emocionalmente.

Ainda que não tenha sido um destaque desse ano, também vi Blue Moon (2025, Richard Linklater) ★★★. Ethan Hawke está demais aqui, mas o monólogo da primeira hora introduzindo a personalidade do personagem me cansou. O filme me ganhou conforme aumentou a dinâmica entre personagens e escancarou suas vergonhas e verdades.

Certa noite, até dei play na Netflix e vi o divertido e demasiado longo Vivo ou Morto: Um Mistério Knives Out (2025, Rian Johnson) ★★★½.

Também revi A Princesa Prometida (1987, Rob Reiner)★★★½ , que parecia mais legal na memória, e Zootopia (2016, Byron Howard e Rich Moore) ★★★★, uma ótima animação, conforme o que eu lembrava mesmo.

Na véspera de Natal, ceei meu prato de comida sozinho na frente do computador revendo Esqueceram de mim (1990, Chris Columbus) ★★★★½. No dia seguinte, assisti a continuação, Esqueceram de mim 2: Perdido em Nova Iorque (1992, Chris Columbus) ★★★★. Continuam tão bons quanto eram décadas atrás.


📺 Televisão

Pluribus: personagens desinteressantes não sustentam uma boa premissa

Terminei Pluribus, vamos falar.

Talvez eu devesse ter dado meus pitacos sobre a série já na edição anterior, e não esperado ela terminar e ver tanta gente precisando falar o que achou - e reclamar infinito do que os outros acharam, assim como eu tô vindo aqui reclamar. Risos.

A discussão em torno do show virou uma dicotomia: de um lado, quem adorou acusa os críticos de serem burros, geração TikTok. Do outro, quem não gostou chama os fãs de bajuladores pretensiosos. Para mim, Pluribus chegou para ocupar aquele espaço de “série inteligente para quem se acha inteligente”. Acho que você sabe de qual lado eu tô.

Longe de mim querer apaziguar essa dicotomia. Eu gosto da treta, ainda mais se tratando de entretenimento, eu prezo pela treta. Melhor ser polarizado nas opiniões sobre uma série qualquer de um streaming do que em outras questões.

Os que elogiam, colocam Vince Gilligan como um gênio. Seu estilo de narrativa é a antítese do que é feito com as séries que precisam de ganchos segurando o espectador o tempo todo. Acho que ir por esse caminho é subestimar completamente os espectadores que não gostaram, como se não fossem capazes de contemplar algo que não foi feito para agradar e nem correr. Nossa, que preguiça.

O problema não é a Carol ser chata ou irritante. O problema é ela ser desinteressante (talvez por ser uma personificação do estados unidos?). E, pra falar a verdade, o episódio 7 só serviu para eu achar o Manousos tão desinteressante quanto ela. Demorou para dar ruim na floresta ein. A única coisa interessante de assistir nessa série era todo o restante do mundo, e eles são os que menos aparecem.

Como é possível gostar de uma produção quando você não se importa com os personagens?

Ainda assim, concordo com quem está indignado com as discussões. A gente poderia estar tendo conversas mais interessantes explorando as ideias do show, em vez de ficar preso nessa binaridade improdutiva. Mas isso não é culpa do público, é culpa dos criadores. É culpa da série, se nem ela quis explorar o vasto universo de possibilidades que apresentou.


De todo mundo que falou sobre Pluribus, o único que recomendo é o texto do sol2070. Não é sobre a série ser boa ou ruim, é sobre a mente de colmeia. Uma análise sobre como o medo da dissolução individual revela mais sobre nossas limitações culturais do que sobre alguma ameaça real. Essa paranoia ocidental com a mente coletiva (representada pela super heroína Carol que quer salvar o mundo) reflete tanto nossa formação cristã (alma individual eterna) quanto a propaganda capitalista (individualismo como valor supremo).

A melhor frase que li sobre o tema: "As pessoas que imaginam supermentes invasoras devem ser as que tiveram ou teriam bad trips na dissolução do ego". HAHAHAHAHAH sério, obrigado sol2070.


Fiz algumas anotações ao longo da série - críticas, elogios e coisas que eu faria se estivesse vivendo nesse mundo. Mas para quê compartilhar quando já acho que esse próprio texto vem tarde? Não quero saber de Pluribus de novo tão cedo.

No momento, terminei de ver Heated Rilvery, e é só disso que eu quero saber na minha vida. SÓ VENHAM CONVERSAR DE SÉRIE COMIGO SE FOR PARA FALAR DESSA MARAVILHA QUE FOI HEATED RILVERY. EU SÓ QUERO SABER DE HEATED RILVERY.

(é, talvez eu devesse ter ignorado completamente Pluribus em dezembro e focado e falado somente de Heated Rivalry)


🎧 Música

Na primeira metade do mês, dei atenção aos álbuns SAYA, de Saya Gray, viagra boys, dos Viagra Boys, e Bleeds, da Wednesday. Todos de 2025 e aparecendo em algumas listas por aí. Quero fazer a lição de casa com os Viagra Boys - eles vêm em março pra cá tocar com o Interpol e sinto que vou acabar comprando ingresso.

Nos dias em isolamento no quarto, foquei em música pop. Achei melhor passar longe de músicas tristes, como se já não bastasse minha situação. Escutei a discografia da Britney Spears. Maravilhosa, né? It's Britney, bitch.


📖 Livros

Contos Completos (2018), de Caio Fernando Abreu

Seguindo a tradição de ler pelo menos um livro gigante por ano (passou de 500 páginas, pra mim, é gigante) e pegando rabeira no Todas as Crônicas da Clarice Lispector, publicado no mesmo ano e que li no ano passado, escolhi os Contos Completos de um de seus maiores fãs: Caio Fernando Abreu.

Se trata de uma coletânea que reúne toda a produção de contos do autor, compilando seis livros: Inventário do ir-remediável (1970), O ovo apunhalado (1975), Pedras de Calcutá (1977), Morangos mofados (1982), Os dragões não conhecem o paraíso (1988) e Ovelhas negras (1995), além de dez contos avulsos, incluindo três inéditos.

Foi uma leitura difícil, comecei em janeiro e terminei em dezembro. Especialmente os anos 70 foram difíceis. Me senti o maior burro em boa parte das vezes, não conseguindo assimilar facilmente as metáforas e o que ele estava querendo dizer. Depois melhora, não sei se a escrita do autor, ou a compreensão do leitor (eu) que se acostuma.

Já havia lido o clássico Morangos mofados (1982) antes (e entendido e gostado muito), mas agora que li a obra completa (de contos) posso dizer que Os dragões não conhecem o paraíso (1988) é definitivamente o meu livro favorito do Caio, com mais contos que eu curti.

Knulp: Três Histórias Da Vida De Um Andarilho (1915), de Hermann Hesse

No fatídico dia em que eu tive que esperar por 11 horas para a ambulância me levar para a Unesp, aproveitei para fazer a leitura desse livro, Knulp. Obviamente me identifiquei com o personagem. Agora preciso me debruçar para entender melhor o contexto de sua recepção. Tenho a impressão que existe um certo ar de moralidade que coloca o estilo de vida de Knulp inferior aos demais.

Nas histórias, Knulp vaga de cidade em cidade, hospedando-se com amigos que lhe oferecem abrigo e comida, sem se prender a compromissos ou bens materiais (se não fosse os compromissos, pareceria minha própria biografia). Ele encarna o espírito de liberdade, mas enfrenta críticas por desperdiçar talento e saúde. E especialmente o “clima” no fim do livro é que me deixou com essa pulga atrás da orelha sobre questões morais.

Heartstopper: Um passo adiante (vol. 3) (2022) e Heartstopper: De mãos dadas (vol. 4) (2022), de Alice Oseman

No início do ano li os dois primeiros volumes de Heartstopper, emprestados da sobrinha de 13 anos que é fã e fica animada a cada edição nova. Assim como a série (que eu só vi a primeira temporada) é uma história extremamente fofa. Gosto do traço e do ritmo da Alice Oseman.

No aniversário da minha sobrinha, comprei as duas edições seguintes que ela ainda não tinha para presentea-la. Só para descobrir que outras duas pessoas fizeram o mesmo, cada uma dando uma edição. 🤡

Enfim, eu não queria terminar o ano sem ler essas duas edições. Agora que terminei posso dizer que é bem fofo e bobo, assim como os outros dois que já havia lido. Tudo que um adolescente precisa. Toda vez que termino uma edição, fico pensando como teria sido minha adolescência se eu tivesse tido esse tipo de conteúdo a minha disposição, uma história em quadrinhos fofa, boba, juvenil E FELIZ cobrindo as questões relacionadas a ser um adolescente homossexual. Não um romance adulto e trágico com cenas sexuais absurdas e a garantia de que viado não tem final feliz, como em O Terceiro Travesseiro (1998), de Nelson Luiz de Carvalho - que era a minha leitura escondido no armário favorita.

Tiny Experiments (2025), de Anne-Laure Le Cunff

Gosto da autora e a acompanho há anos com suas pesquisas sobre neurociência e ferramentas de pensamento. Ela também usa Roam Research.

No livro, ela promove uma vida mais experimental, guiada pela curiosidade, em vez de obcecada por metas fixas.

Nada excepcional. Tenho a impressão de que já havia internalizado as principais ideias através de outros conceitos e estudos, inclusive espirituais. Mas vou revisar a parte prática. Pode ser mais interessante para quem não leu muitos livros de produtividade.


📄 Artigos favoritos

  • Eu Odeio IA (Anthony Moser): um manifesto contra a IA. O autor rejeita completamente a cortesia obrigatória de "debater usos apropriados" - simplesmente odeia, ponto. Uma posição que celebra a humanidade através do próprio ato de odiar, algo que só humanos conseguem fazer. Traduzido pro português pelo @gildaswise.
  • Luto (Ieda Marcondes): reflexão honesta sobre a morte da mãe após 20 anos "se preparando" para o inevitável. Ieda expõe a ilusão de que podemos nos blindar emocionalmente.
  • Onde você coça não coça (Luca Brandão): ensaio belíssimo que usa uma fábula de Galeano para falar sobre autenticidade na literatura. "Você coça bastante, mas onde você coça não coça". O autor conecta com sua própria urticária como metáfora para pressões externas na escrita. Defende que cada um descubra sua própria "coceira literária" e convoca para escrever "para viver a experiência, não para performar" - um antídoto contra a literatura performática das redes sociais.
  • It's Uncomfortable To Sit With "I Don't Know" (Jim Nielsen): reflexão sobre a incerteza do conhecimento e como vivemos em um mundo cheio de "certezas" vendidas por influencers, consultores e IA. Destaca a dissonância cognitiva de pessoas que criticam IAs por erros em tópicos familiares, mas confiam nelas para tópicos desconhecidos.
  • Pressão em escolas no governo Tarcísio leva dois professores e um diretor à morte; aluna de 14 anos tenta suicídio duas vezes (Tatiana Dias - Intercept Brasil): Reportagem sobre como o plano de transformar SP em "potência educacional" com metas agressivas e plataformas digitais está adoecendo profissionais da educação em escala sem precedentes. Aliás, cada conversa que tenho com a minha sobrinha sobre a escola, me deixa mais horrorizado com a educação.
  • A Web Social como quilombagem (Mas Divago…): compara a participação no Fediverso com o conceito de quilombagem de Clóvis Moura - um movimento de desgaste permanente do sistema escravista. Argumenta que participar de redes federadas é uma forma de resistência ao capitalismo de vigilância, similar aos quilombos que desgastavam o sistema escravista. Deixar de criar conteúdo nas mídias sociais imperialistas é uma recusa radical de ter seu valor extraído e privatizado.
  • O valor da Duolingo e o mercado ~sedento por IA (Augusto Campos): sobre como o mesmo fator que barateia custos pode corroer valor. As ações do Duolingo explodiram quando anunciaram demissões e substituição por IA, mas depois despencaram quando ficou claro que isso gerou má-vontade e qualidade variável.
  • Não se organize (Felipe Siles): texto irônico e provocativo que lista tudo que você NÃO deve fazer - desde não usar apps de produtividade até não cozinhar, não ler, só consumir redes sociais. Crítica à cultura de produtividade tóxica disfarçada de anti-manual.
  • Usando a IA como ajudante, não como substituta (Alessandro Feitosa Jr): Relato prático e equilibrado sobre uso de IA para desenvolvimento. A curiosidade tem papel fundamental para ver IA como ajudante, não substituta. O tipo de texto que Anthony Moser, que odeia IA, passaria longe.

Enquanto todos estavam de rolê nas festas de fim de ano, eu tive muito tempo livre no meu quarto para navegar por aí.

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👋
Obrigado por acompanhar mais uma edição do Fragmentos Periódicos. Uma newsletter do Cosmoliko, em que eu, Eliel Guilhen, tenho usado para processar com mais atenção o que consumi no último período e escrever um pouco sobre o que tem me movimentado.

Essa edição foi finalizada no quarto em que faço de confinamento enquanto me recupero da infecção de Mpox. Espero que na próxima eu esteja 100% de saúde e liberado para abraçar as pessoas. depois de eu já estar saudável e podendo abraçar pessoas, inclusive, sedento por abraçar as pessoas.

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