Tatuagem salva-vidas

Eu anoto sobre tudo, todos os dias. Geralmente são anotações que me ajudam com o trabalho e estudos. Mas também anoto bastante sobre meu estado de humor e utilizo depois para analisar as variações, principalmente nos momentos que estou pra baixo e muito mais vulnerável mentalmente.

Tatuagem salva-vidas

Eu anoto sobre tudo, todos os dias. Geralmente são anotações que me ajudam com o trabalho e estudos. Mas também anoto bastante sobre meu estado de humor e utilizo depois para analisar as variações, principalmente nos momentos que estou pra baixo e muito mais vulnerável mentalmente.

Pois bem, nesse abril certamente atingi um dos picos mais baixos do meu humor nos últimos anos. Especificamente o dia 25 foi muito difícil e pude perceber através das anotações que estava realizando algo que não fazia há muito tempo: ideações suicidas.

Talvez, por eu ser calejado na variação do humor abaixo da média entendendo isso como processos químicos do meu cérebro, busco repetir para mim mesmo que são mentiras o que a depressão quer me contar, assim como também busco visualizar o quadro em que me encontro como passageiro, mais um quadro passageiro, por mais difícil que seja, e que não estou pensando com clareza, que a última coisa que eu tenho em relação a mim, ao meu estado e a vida é a clareza.

Como então superar essas fases terríveis mais rapidamente? Cara, eu nem lembrava quando tinha sido a última vez que eu tinha pensado em suicídio. Quanto tempo levaria para me recuperar indo num psiquiatra que eu nem confio e fazendo terapia online pelo whatsapp travando voz, imagem e a conexão emocional?

Sem tempo irmão.

Por isso, comecei a pesquisar sobre internações voluntárias e por depoimentos de pessoas que já haviam sido internadas. Quais eram seus motivos e como foram suas recuperações? Fazia sentido para mim uma internação? Me traria resultados mais rápidos? Estaria livre das trocas de remédios?

Depois de um tempo lendo e vendo histórias de internações, absolutamente todas com quadros muito piores que o meu - o que me deixou totalmente confuso a respeito se fazia algum sentido para mim -, tive um breve momento de epifania em que passei a enxergar fora de mim. Subitamente tudo perdeu o sentido. E logo depois os mesmos sentimentos voltaram. Sei lá o que tinha acontecido, mas eu estava de volta ao meu quadro fodido da cabeça, bem fodido da cabeça.

Até que de noite, sentado na cama com as pernas cruzadas, me vi numa posição em que passei a enxergar minha tatuagem "choose a life" no braço direito, e próximo a ela meu calcanhar esquerdo com o número "27".

Era para ser um 7.

A primeira tatuagem que eu queria fazer era pra ser um 7 em contraste com o 13 no calcanhar direito, cujo significado é bem específico e pessoal. E eu levei uns 7 anos ou mais para fazer a primeira tatuagem depois da idealização dela. Fiz no aniversário de 28 anos. Fiz o 7, depois o 13, e então voltei ao 7 e adicionei um 2, virou 27. Eu estava fazendo 28 anos e ainda estava vivo. Algo que eu, 10 anos atrás, não acreditaria que fosse possível.

Por isso o 27.

Longe de mim querer romantizar o clube de artistas que morreram tragicamente aos 27, embora todo adolescente quebrado em algum momento possa ter feito isso. Acontece que, depois da primeira tentativa, eu passei bons anos da minha vida crente que morreria cedo, e que seria de suicídio. E naquele momento em que eu estava tatuando minha pele pela primeira vez depois de tantos anos com a ideia na cabeça, me vi vivendo muito mais. Eu poderia morrer naquele dia, ou antes, ou depois, ou hoje, e estaria tudo bem. Tive uma vida e tanto. Mas eu também poderia viver mais, bem mais, e eu estava bem ok com a ideia de viver mais. Aquele 27 era pra me lembrar que eu estava fazendo mais um aniversário (algo que eu costumava abominar), que eu não tinha mais 27 e continuava vivo. Choose a life.

Entrei numa crise de choro, mais uma vez, a milésima da semana, porém, desta vez era diferente. O choro foi porque eu lembrei que era um suicida e até então eu não havia me matado, podia viver mais um dia. Meu coração se aqueceu por um breve momento e eu senti esperança. Esperança de que as coisas iam melhorar.

Fui no psiquiatra no dia seguinte. Trocamos a medicação, mais uma vez. Quantas vezes isso será preciso? As coisas continuam uma merda, mas vão melhorar, se não, eu me interno.

Na verdade, já melhorou ou você não estaria lendo isso.

Enfim, as anotações:

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Aproveitando, depois de alguns vídeos de internações o Youtube me recomendou esse daqui sobre se livrar de pensamento suicidas que é interessante:

Como se livrar de pensamentos suicidas? Do canal Neurologia e Psiquiatria TV com a psiquiatra Maria Fernanda Caliani

Entre as tantas dicas, ela fala para entrar em contato com alguém.

Eu nunca fiz isso. Na verdade, toda vez que estou muito pra baixo ignoro a maioria das mensagens e amigos. Simplesmente, não consigo pedir ajuda nesses momentos. E tomara que eu não precise pedir, afinal.

(se você é um dos tantos ignorados e tá lendo isso, foi mal)