Meu respiro dói

Meu respiro dói. Uma fungada parece uma agulha no coração. Não sei como controlar essas dores. Sei que elas se intensificam. Não sei controlar essas dores vivendo o meu dia a dia, vivendo o que eu tenho para viver hoje.

Meu respiro dói

Meu respiro dói. Uma fungada parece uma agulha no coração. Não sei como controlar essas dores. Sei que elas se intensificam. Não sei controlar essas dores vivendo o meu dia a dia, vivendo o que eu tenho para viver hoje. Sinto que para controlar essas dores eu preciso de mais do que tempo livre, mais do que tempo para recarregar a bateria, mais do que entender que não deve me afetar o que não pode ser controlado, mais do que simplesmente ir a praia durante a semana, mais do que fazer yoga, exercícios e meditação. Sinto que para conseguir controlar minimamente essas dores, eu preciso ver o governo no chão, dissolvido e dilacerado, eu preciso de desculpas de quem os elegeu, eu preciso acreditar que todos que eu amo estão em segurança, eu preciso de violência e sangue, não os meus, mas de todos os messias.

As discussões do ano passado, sobre eu sair do hostel e ir a praia, eu queria voltar a todas elas e mandar um foda-se, ir a praia todos os dias sim, me arrependo de não ter ido antes, de não ter ido mais, de não ter deixado meus amigos de esquerda ainda mais putos e carregados de palavras em vão.

Tenho um contrato e quanto a isso não posso fazer mais nada além de me afundar na própria hipocrisia, nos próprios dilemas e acreditar de olhos fechados que tudo vai dar bem - independentemente das improbabilidades.

A fim de não respingar meu ódio injustamente em quem não merece, "fugi", leia-se: peguei um ônibus para a cidade ao lado. Ao menos para não quebrar meus ossos nas paredes, pois a raiva e impotência que eu andei sentindo era tanta que apenas me impediria de mostrar o melhor de mim para quem está a minha volta.

As últimas horas foram cinzas e chuvosas, já vi essa história antes, andei bastante, caí, me machuquei, vi sangue escorrendo para uma banheira de peixes e caranguejos. Continuei andando. Quando parei, respondi as mensagens, respondi meus amigos, postei nessa rede social - coisas simples, mundanas, porém essenciais, que eu não dou conta trabalhando 7 dias por semana e abduzido por pensamentos desenfreados.

Eu queria sim mais tempo para mim, queria sim estar com amigos. O que me impede são essas barreiras psicológicas, cada fungada uma agulha no coração, veste a máscara e bota o sorriso na cara, mostra que tu é Jesus, vai dormir cansado e sem vontade para o dia seguinte. Alguém me puxa? Porque é tão cedo para os laços emocionais traduzirem nossos afetos e o que sentimos aqui dentro. Ou seria, "por que"? Separado, sem acento e com interrogação?

Daqui dois dias vai fazer um ano que eu cheguei à região dos lagos. Eu queria, deveria, comemorar? Como se comemora nesses tempos difíceis sem a dor no coração?

O Books Rehab Hostel fechou e eu não estava lá para me despedir.

Devo eu me culpar?

Parece que um ciclo se encerrou sem que a cerimônia formalizasse minha passagem, sem que um ritual finalizasse dentro de mim essa história, essa trajetória. Eu queria estar lá.

Ao mesmo tempo, mais agulhas no coração, como se preparar para essa semana? Tenho dias pela frente que não posso expor o porquê do que sinto a respeito, além de insegurança, incapacidade e medo, muito medo. Vou me arrepender no futuro por não ser um cuzão? Espero que não, pois aí significará que toda minha preocupação foi extrapolada e é tudo que eu mais quero que seja.

Então peguei o ônibus, tentei escapar dessas agulhas que se traduziram em injustiças agressivas da minha parte, e nem sei como volto. Melhor ou pior? Deu certo ou não deu? Tá tudo bem?

Eu sei lá, continua tudo uma bosta, ainda no desejo por violência e sangue. Minhas e nossas vulnerabilidades como sociedade que deu errado. Ao menos, deu para suar, e tirar do vácuo as tantas mensagens e, mais do que tudo, escrever, traduzir em palavras os sentimentos que me assolam. Nada que venha a fazer uma diferença para o mundo, exceto registrar meu incômodo, quiçá devaneios.

Sei que mal cheguei e cumpri uma carência fisiológica, mas acumulei mais uma emocional. É certo que o desapego que eu construí dentro de mim há mais de década foi fundamental para minha sobrevivência, mas hoje cobra relações mais fortes, que eu não posso cultivar por estar além de mim. E assim sigo munido de relações vazias. Não por escolha, por consequência.

Respirar ainda dói, e mesmo sem controlar as dores, tenho um novo kit de sorrisos para entregar. Sejam bem-vindos e aproveitem a estadia. Vocês vão amar.