Foi um plot twist atrás do outro

Foi um plot twist atrás do outro

Foi um plot twist atrás do outro.

Estava tudo tão bem, exatamente um ano atrás, eu estava tão feliz e pleno. Queria guardar esse sentimento em um potezinho e abri-lo sempre que precisasse me sentir melhor, ou entrar nele e não sair mais, ficar lá dentro acolhido pelo carinho dos meus amigos nesses dias em que tudo estava simplesmente bem. Pra falar a verdade, hoje eu queria me afogar nele, me embriagar desse momento em que eu também já tinha traçado e esquematizado todos os próximos passos pessoais e profissionais… Quando tudo parecia estar determinado a dar certo.

Porém, foi um plot twist atrás do outro.

Vai ver eu não deveria ter me livrado de uma obsessão de 10 anos queimando papelzinho na lareira – uma coisa tão idiota, longínqua e obsessivamente irracional que só precisou de um ritual de passagem para acabar – ou só tô inventando isso agora pra ter uma nova obsessão e uma bobagem para culpar. De qualquer forma, acho que não dá pra considerar ter me livrado de uma obsessão de ficar sem escutar um determinado artista como o primeiro de tantos plot twists desse período bizarro.

Na verdade, o primeiro plot twist veio no segundo dia de trabalho. Mexeu ein. Mês seguinte, mais um. Março, pra todo mundo. E não parou mais. Todo mês. TODO FUCKING MÊS.

Atingi novas extremidades da saúde mental inúmeras vezes. Podia ter parado ali com o tal do famoso burnout – o qual só devo ter ficado na linha tênue e não atingido algo pior por causa do meu autoconhecimento, de entender um pouco como minha cabeça funciona, após tantos anos de filosofia pessoal, terapia e psiquiatria.

É estarrecedor o tanto que eu vivi nesse último ano. E para quem sempre carregou o lema de viver o máximo de experiências possíveis, confesso que viver na zona de conforto não me parece mais de todo ruim e às vezes eu até queria estar de volta em uma – vai ver é porque conforme os anos avançam o pique diminui ou é a serotonina desregulada mesmo.

Na última reunião de trabalho presencial, dessas reuniões que você nem acredita que tá acontecendo, eu só levantei da cadeira e anunciei que sairia por aquela porta e não voltaria mais. Pensava nas férias vencidas e não que literalmente eu não voltaria, mesmo depois de 30 dias.

Na mesma noite peguei os ingressos para a escola de samba carioca que ganhei de presente, chamei minha amiga, e de madrugada já estava na rodoviária comprando passagem para o Rio – que nos recebeu cinza e trágico, tanto quanto eu – esse deve ter sido o segundo plot twist. A madrugada do fatídico dia 29 de fevereiro mudou minha vida radicalmente (curioso, o tema do meu último aniversário tinha sido o retorno de Saturno, ahh, se eu soubesse)

Fiquei bem, o Rio voltou a ser lindo, era hora de conhecer a Bahia caronando conforme a meta estipulada para o ano. Mas o Universo quis que eu passasse por Arraial do Cabo despretensiosamente – bendito! – um lugar que até então eu nem sabia que existia virou meu refúgio. O terceiro plot twist, em março, que afetou a mim e a todos. Me vi quarentenado a 600km de casa, da minha zona de conforto. 5 meses pagando aluguel em São Paulo e morando no Rio de Janeiro.

Cortei bruscamente o remédio que me dava mais clareza e me tirava dos demônios internos. O mundo caótico, minha vida caótica, o trabalho desesperadoramente caótico e fora de alcance de todas minhas tomadas de decisão.

Um plot twist atrás do outro.

Um vexame, uma humilhação e, enfim, estava decretado: não compactuava mais com os valores do lugar que eu era apaixonado e me via trabalhando por mais 10 anos. Foi difícil para um caralho, mas depois de 5 anos eu tive que me despedir – online, ainda bem. E doeu, doeu tanto. Sei lá se eu chorei mais nessa época ou no início do ano quando eu era um botijão de gás prestes a explodir – e mal sabia que eu tava era chorando pouco, ainda tinha muito mais lágrimas por vir. Aliás, acho que tudo que eu não chorei nos outros anos, deixei pra chorar em 2020.

A tatuagem no braço me lembrou que a qualquer momento eu poderia escolher uma nova vida. Novas oportunidades para viver novas experiências.

Fiz 29 anos sentindo saudades como nunca antes. Ansioso, armando novos planos. Uma vida inteira pela frente, qual seria o próximo passo?

Não faltavam ideias para quais seriam as minhas próximas fontes de renda: dados, no-code, slow web, escrita, vídeo, fotografia, conteúdo… Ideias nunca faltam, é na mão na massa que reside a treta. E eu tava “livre” para concretizar sonhos que foram engavetados, quer dizer, não tão livre assim por causa do mundo de ponta cabeça e meus sonhos passados e não realizados indo para o ralo por não serem mais viáveis por causa do covid.

O plot twist seguinte foi ter abrido um restaurante delivery. De publicitário com anos de experiência para entregas de bike das costelas de adão assadas pelas ruas labirinticas de uma cidade litorânea. Sim, até hoje eu também me assusto com a ideia de ter feito um delivery sendo uma pessoa que nunca se deu bem com a cozinha. A ideia era abrir um quiosque boteco de Jesus. O que eu não podia era ficar parado e perder as oportunidades que eu mesmo estava criando.

Corta, tô de volta a São Paulo, encerrando um ciclo oficialmente e vivendo as dores da quarentena, a depressão e ansiedade na maior cidade da América do Sul, e minha cidade favorita ainda hoje, ainda assim.

Corta, tô de volta a Arraial do Cabo, sem nem sequer encerrar o delivery decentemente, me vejo sócio proprietário dono de uma pousada enorme em um dos lugares mais lindos e turísticos do país em plena pandemia global.

Liquidificador batendo meus dilemas, minhas hipocrisias, meus questionamentos, minhas decisões, erradas ou não.

Foi um plot twist atrás do outro.

“Olha lá o cara que largou a vida corporativa para ser feliz na praia”. Antes fosse assim tão fácil, eu só queria sumir toda vez que lia isso.

Não deve importar muito o tipo de negócio, sempre vai ser uma barra o início. Tem que ter a cabeça no lugar para dar conta, e a única coisa que eu tenho no lugar é a certeza da constante desordem dos meus hormônios e da insignificância de viver – se eu pudesse brilhar de dor, eu seria bafo – logo, muitas vezes não dei conta.

“Ah, me contaram como você está feliz agora!”. Por dentro eu querendo desaparecer, por fora vestindo máscara, por vezes derrubando ela e deixando os mais próximos vigilantes.

No meio de tanto plot twist, nunca tive tanto dinheiro e nunca abri mão de tanto dinheiro. Talvez eu até pudesse ter achado uma forma melhor de ter gastado, porém não havia mais espaço nem tempo para dúvidas e muito menos arrependimentos. Não há. Prefiro acreditar na transição e que eu devo me manter em movimento, sempre levantando a cada tombo.

Uma vez, já com a pousada funcionando, minha energia foi sugada numa conversa pela madrugada que eu tive que desbaratinar para ir dormir e descansar para o café da manhã seguinte. Mas não dormi, fechei a porta e tive uma crise de choro embasbacado com o que tava me acontecendo, com o tipo de pessoa que eu estava lidando, com o tipo de conversa que eu estava ouvindo. Larguei uma vida para dar moral pra gente que eu nunca quis por perto? No dia seguinte, acordei decidido a dar fim em tudo, perder todo o dinheiro e simplesmente ir embora para qualquer lugar. Então, surgiu alguém no balcão da recepção e uma conversa de 10 minutos me inspirou e abriu os olhos para me manter resiliente. Minha mãe diz que foi um anjo que ela orou pedindo a Deus. Se for assim, eu acho que devo ter uns 30 anjos da guarda, os cara tem trabalho e a troca de turnos deve ser uma loucura.

Minha vontade de fugir pras montanhas, ficar longe da civilização, apenas lendo livros e escrevendo terá que ser um plot twist adiado. Na verdade, eu poderia escrever de qualquer lugar. E se não fosse as cambalhotas inesperadas dessa vida eu já poderia estar traçando novos planos para me manter vivo com essa arte.

Não importa, com quem ou onde esteja, as rasteiras virão. Ainda bem que não me falta coragem, e mesmo quando tenho medo, abraço a situação, como foi esse 2020, dois mil e viiiiiishh.

Queria tanto poder fechar o ano na paz, começar 2021 arregaçando. Entretanto na maior parte das vezes tenho dificuldade de ser grato e celebrar minhas conquistas. Vez ou outra que eu olho pra trás como foi a caminhada até aqui – a caminhada que começou há mais de década – e comparando as situações sempre me vem na cabeça: “sério, cara? tu que já não teve onde cair morto, tá achando essa paradinha aqui difícil?”. Pois é, e ainda assim continua desafiador, difícil para agradecer e enxergar o que deu bom – como se eu não tivesse energia suficiente pra isso. Costumava ser mais fácil, as situações perigosas em que eu já me meti me davam força e a certeza de que eu era capaz de fazer qualquer coisa e vencer qualquer situação. Eu ainda sei que posso, só está mais difícil de lembrar.

Porra, com menos de 20 anos eu já tinha passado por situações extremas, tomado decisões difíceis, dado a cara a tapa em busca de realizar sonhos que foram mutilados e ainda sobrevivi pra contar.

Com menos de 30 eu tenho passagem em diversas áreas de conhecimento, uns 15 empregos diferentes no currículo e ainda assim uma carreira sólida numa área que só cresce e que me fazem propostas até hoje, abri meu próprio negócio, conheci outros países e moro num lugar paradisíaco. Porra, eu não posso esquecer disso. Eu sei, eu sei. Amadurecer é difícil, suspeito que não importa a idade, e que sempre tem para onde expandir mais.

2020 acabou com um novo plot twist, um desgraçado novo plot twist nos últimos minutos do segundo tempo, quase que alertando: se prepara que 2021 vai ser porrada.

Minha vontade, minha maior vontade, era só de abrir aquele potinho imaginário que eu guardei minhas emoções há um ano e me fechar ali dentro. Esquecer de todos os problemas a minha volta, esquecer o passado, o futuro e o tudo mais, e só ficar ali flutuando nesse potinho repleto de boas sensações.

Mas essa não é uma escolha.

Já deu ruim e vai dar ruim outras vezes.

Abaixar a cabeça não é uma solução e, embora eu tenha escrito a maior parte disso aqui por falta de serotonina, eu sei que só superei todas as merdas até aqui por causa das pessoas que me apoiaram.

(Não quero citar ninguém, mas quem se envolveu e quem estava comigo, mesmo a distância, sabe da importância que teve para mim nesse ano. – e eu sei que pode ter algum amigo que eu não respondo há meses me lendo agora louco para me ajudar no que for preciso. Desculpa pelos vácuos, mas fica em paz. Continue acreditando em mim)

E se eu terminar escolhendo palavras negativas para finalizar esse amontoado de desabafos embaralhados, já vou começar sem energia suficiente pra essas novas lutas, ou não.

Portanto, valeu aí 2020, seu desgraçado. Pode vir 2021, tu não vai ser o primeiro nem o último. O que não falta na minha trajetória é plot twist, ainda dou conta de mais alguns.

Have I become the cavity I feared?
Ask me in twenty years