Fogo da Rita Lee

Feiticeiras como Rita que impregnam tantas ovelhas negras ao longo das décadas uma hora precisam partir

Fogo da Rita Lee
Rita Lee no aniversário de São Paulo / Foto de Epitácio Pessoa

A estação Julio Prestes estava lotada

Meu coração acelerado. Nervoso.

Ainda não acostumado ao tanto de gente nas estações. Aquele dia em particular ainda mais cheio.

Tão cheio e me causando mais nervosismo que eu nem conseguia apreciar a beleza da estação mais linda de São Paulo.

Mas eu não tava ali para turistar pela cidade, a qual eu era um recém-chegado, desnorteado com todas ruas e seus prédios em direção ao céu. Eu tava ali pelo mesmo motivo das outras pessoas a minha volta: Roque Enrow.

Na época eu trabalhava na Aclimação. E talvez se eu não fosse tão pinto fora de casa naquele momento, um caipira vivendo tanta coisa pela primeira vez. Se já tivesse mais noção de como funciona a cidade ou se já tivesse amigos para me acompanhar. Talvez eu não tivesse chegado atrasado naquela multidão amedrontadora.

Com medo de tanta gente diferente reunida, tanta idade diferente, gente vestida, mal vestida e pouco vestida. Gente com faca nos dentes e sem chinelo nos pés. Com medo me enfiei no meio desse povo. Adoraria chegar o mais perto possível do palco e ter um copo de cerveja nas mãos para levantar enquanto cantava. Mas além de não ter dinheiro, não estava certo de ter a habilidade social necessária para interagir com os ambulantes impacientes que gritavam no meio da galera. Temia conseguir um gole e terminar na sarjeta usando craque, esquecer de como voltar pra casa e não lembrar nem o que fui fazer ali para início de conversa.

Apertei mais forte minha mochilinha no peito e avancei. Se eu tava ali enfrentando os perigos que a cidade grande apresentava era também por causa dela. Tão destemida, radiante e feliz. Cheia de atitude para pensar, falar, cantar e viver. Eu queria esse poder. Quem sabe olhando diretamente para ela conseguiria sugar um pouquinho da sua feitiçaria.

Era tanta gente, e eu tão baixinho. Percebi que seria impossível continuar. Tive que me contentar em ver seu cabelo vermelho correndo de um lado para o outro, nada se destacava mais do que ele naquela noite. Quando eu conseguia focar nele, de repente já estava em outro lugar ou alguma cabeça alta entrava na minha frente. Mas quando ele parava quieto e permitia observar melhor os detalhes era como se brilhasse e pegasse fogo. Meus olhos queimavam e refletiam esse calor. Meu coração se aquecia e começava a se sentir insuperável escutando tantos palavrões e protestos para que cuidassem da cidade e daquele evento.

Fui embora pouco depois. Esse tipo de magia que tive contato traz melhores resultados com o tempo e aquela primeira noite de absorção não me protegeria a noite toda.

Voltei a encontrar Rita Lee anos depois no aniversário de São Paulo. Garanti um lugar perfeito para admirar seu fogo. Agora mais malicioso e entendido de como a cidade funcionava, não mais ficava boquiaberto ao ver uma fileira de prédios. Certeza que foi um pouco da sua mágica que absorvi naquela noite que me deu coragem pra continuar lutando e vencendo.

Depois, já aposentada e escritora, pude abraçá-la e conseguir meu autógrafo. Não pude deixar de notar que aquele fogo que me encantou antes agora parecia estar se apagando. Foi a primeira vez que pensei em sua finitude. Então pude realizar que feiticeiras como Rita que impregnam tantas ovelhas negras ao longo das décadas uma hora precisam partir, mas deixam seu fogo aceso dentro do lado mais subversivo dos nossos corações para nunca mais se apagar.