Eu passo o tempo todo com raiva

Eu passo o tempo todo com raiva. Às vezes essa raiva me domina, é inconsciente e vem depois de algum gatilho, simplesmente perco o controle sobre os meus atos e quebro. Literalmente, quebro.

Eu passo o tempo todo com raiva

Eu passo o tempo todo com raiva. Às vezes essa raiva me domina, inconscientemente, simplesmente perco o controle sobre os meus atos e quebro. Literalmente, quebro. O que tiver em minhas mãos, eu quebro. Na última vez, quebrei a peneira que uso para limpar a piscina, uma ferramenta muito útil e necessária para o meu dia a dia. Eu a quebrei. Bati não sei quantas vezes na grade que cerca a piscina e a separa do estacionamento, e depois a joguei no chão. Pude ver os pedaços da borda da peneira se dividindo e reagindo aos efeitos da física. Tive esse acesso de raiva num momento que estava com a peneira em mãos. Se não estou segurando algo, desconto a raiva na própria mão. Basicamente, os outros acessos se resumiram a socar a parede ou o que estivesse por perto. Não pensem que a dor me desaceleraria, muito pelo contrário, a dor se torna quase que uma conquista, um belíssimo e prazeroso prêmio, fruto do meu grandioso esforço. Conheço esse sentimento. Meu histórico de automutilação acendeu um alerta e passei a ficar vigilante quando tinha essas crises que se repetiram algumas vezes, até eu fugir para Búzios para caminhar com meus pensamentos sozinho e ter aumento na dosagem de remédio na sessão de psiquiatria seguinte. Achei que os acessos de raiva cessariam, na próxima sessão poderia diminuir a dosagem novamente. Contudo, eu quebrei a peneira. Quebrei a peneira mesmo um mês depois do último acesso, quer dizer, penúltimo acesso. Gritei também. E não foi um grito. Gritei várias vezes. Tudo que eu precisei falar para quem estava perto foi aos gritos. A resposta a esses gritos me fez começar a retomar a consciência e perceber como estava agindo. Eu estava errado, agindo mal, tratando mal. Mas eu queria continuar gritando, eu queria continuar quebrando. E eu estava errado, isso estava errado. Então passei a falar alto, o que é menos do que gritar, enquanto a culpa começava a me preencher. Envergonhado e ainda com raiva, talvez até mais raiva, uma raiva de mim mesmo encoberta por uma cada vez mais grossa capa de culpa. Peguei a bicicleta, pedalei rumo a floresta deixando lágrimas pelo caminho. No meio daquelas árvores secas e quase mortas, solucei até me acalmar.

Pois quando a raiva diminui, eu quero chorar. Exceto nesse exato momento, que comecei a escrever e não consigo parar. Agora que estou escrevendo o que me vem a cabeça, eu não quero chorar. Porém, se eu tivesse que responder sinceramente a algum amigo ou qualquer conhecido, transbordaria enquanto digitasse que a situação toda está uma merda, que não temos dinheiro, que um furacão passou por aqui, que um furacão permanece aqui, que esse país está lascado, que muita gente ainda vai morrer, que eu quero que muita gente morra, que eu quero morrer por querer isso, que eu quero negacionistas e antipetistas se arrependendo na UTI, que minha cabeça não aguenta mais os dilemas, que meus aprendizados não valeram a pena na balança, que meus esforços foram em vão, que fomos ameaçados de morte, que estamos sendo intimados, que destruíram qualquer sentimento de segurança que tínhamos, que eu tenho medo, que eu estou doente, que eu preciso trabalhar mais, muito mais e em diferentes frentes, que eu me canso fácil do computador, que é também onde eu queria estar e permanecer, porém focado em outras coisas, outros projetos, outras fantasias, outras realidades, outras histórias, outras escritas, inclusive, por mim. Eu quero chorar porque quando estou acordado vivo um pesadelo que não parece que vai acabar. Quero chorar porque eu sei que praticamente quase nada desse pesadelo tem origem em algum ato meu, e ele continua e continua. Tudo que me machuca está além de mim, está além do meu controle. E por eu também saber que tudo isso está além de mim e que absolutamente tudo que está ao meu alcance faço de peito aberto, que eu quero chorar. Não deveria me afetar o que não tenho controle, porém regredi como esse ser humano evoluído e hoje tudo isso me afeta, me afeta bastante, me afeta tanto que eu quero chorar. Eu. Eu. Eu. O que adianta uma vã filosofia e uma mínima compreensão social, espiritual e do raio que nos parta quando o choro vem incontrolável, inconsciente e intransigível? Tal qual a raiva. E eu passo, o tempo todo, com raiva.

No meio dessas árvores secas, solucei até me acalmar.