Crônica dos Doze Trabalhos de Cristo

Crônica dos Doze Trabalhos de Cristo

Tudo que você precisa saber com esse post é que eu estou oficialmente de FÉRIAS, e um marco desse precisar ser registrado na minha linha do tempo.

E mês passado fez 2 anos que eu trabalho na Wieden+Kennedy, o que me inspirou a começar esse textão que eu resolvi dar fim ontem apenas emendando com as FÉRIAS – e que por isso vou deixar ele aqui bonitinho salvo no evento.
Caralho, esse dia chegou. Me sigam lá no insta meo: https://www.instagram.com/jesusontheroad/


CRÔNICA DOS DOZE TRABALHOS DE CRISTO

Não sei se eu já contei essa história, em que a primeira vez que eu parei para pensar sobre capitalismo e a relação do homem com o trabalho – ainda que superficialmente – aconteceu após assistir a animação Lilo e Stich.

Pois é, um monstrinho alienígena fofo azul fez mais por mim do que a aula que foi só questão de decorar a linha genérica sobre o que eram sistemas político-econômicos pra manter a postura de CDF.

Vou explicar: a professora passou o filme para a classe e deixou um trabalho de meses, que era o de refazer a história em quadrinhos. Eu super empolguei! Primeiro porque eu queria desenhar (embora eu não tivesse talento e vivesse com inveja dos meninos do fundão que desenhavam o Goku e o Majin Boo de cabeça), e segundo porque eu adorava quadrinhos, tanto que no ano anterior eu tentei montar o meu próprio – e, se me lembro bem, era bem vergoninia.

Acontece que, na época, a minha mãe tinha acabado de comprar um computador e, demonstrando a aptidão para as tendências digitais dessa geração, procurei num famosíssimo site chamado Google, cujo logo era brilhante, com relevo e sombreado, o nome do filme e encontrei várias screens. Ahazou. Eu fiquei na frente do computador por horas desenhando todas as personagens em diferentes cenas, principalmente das figuras do site da Disney – que era muito legal, mesmo que demorasse mil anos pra carregar com a internet discada. Eu não tinha talento, mas consegui reproduzir minimamente bem o que estava no monitor, e aos poucos fui montando minha versão de Lilo e Stich em quadrinhos que me deu um puta orgulho.

Então, peguei os rascunhos com as personagens desenhadas e levei na papelaria ao lado da escola e fiz váááários xerox. Eu sabia que a maior parte da sala não daria a devida atenção ao trabalho e entraria em desespero conforme o prazo acabasse. Quando esse momento chegou, mostrei que eu poderia salvar suas vidas entregando meus rascunhos – que estavam com caneta preta grossa reforçando as linhas – e que bastaria colocar outra folha de papel branco em cima para copiar os desenhos. Tudo isso por um custo “mísero” de 50 centavos, o que era a metade do preço de um cachorro quente da cantina 15 anos atrás. Adoraram a ideia.

Trouxe várias cópias e entreguei a todos que estavam com o dinheiro na mão. Eu precisava vender todas as cópias naquele mesmo dia, pois corria o risco de alguém pegar emprestado de outro alguém e xerocar por 1/5 do preço. (É, o xerox era bem mais em conta antes da faculdade)

Devo ter conseguido pouco mais de 20 reais. UMA FORTUNA, que me deixou felizão e mais próximo de comprar o livro do Harry Potter – e comer cachorro quente no recreio. E, embora antes eu já tivesse vendido os pães de mel que meus pais faziam, foi só naquela situação que eu enxerguei a possibilidade de ficar rico e comprar todos os livros do Harry Potter! Nossa, o capitalismo era muito legal.

Depois disso, eu sempre pensava em uma maneira de conseguir dinheiro na escola: fazia lição dos outros, vendia tazo e cards do Yu-Gi-Oh – itens facilmente encontrados pelo chão ou lixeira das casas das primeiras famílias evangélicas que começaram a dar moral para o Ratinho – e sempre sonhando com o próximo trabalho que envolveria desenhar um novo filme, que nunca aconteceu.

Obviamente eu não tinha a mínima noção de mais-valia e nunca fiquei rico. Cê acredita que absurdo?!

E vou confessar que cheguei ao ensino médio sem entender a porra do capitalismo, mesmo me achando O capitalista na quinta série e mesmo achando que eu sabia alguma coisa. O tempo passa e mostra que todo xofem uma hora descobre tendências para o anarquismo ou socialismo – pelo menos aqueles que sentem o peso da falha meritocrática porque não venderam xerox o bastante. Aliás, eu ainda não havia me dado contato que estive em contato com o capitalismo a vida inteira. Inclusive, vendendo pão de mel. Minha mãe pode não pensar sobre isso, mas me deu meu primeiro emprego na vida e com ele muitos aprendizados.

O pão de mel me fazia valorizar o dinheiro e o suor da minha mãe na labuta, a treinar a persuasão (essa eu acho que morreu no primeiro seminário), chegar nas minas (quer dizer, elas chegarem em mim), enxergar que eu era muito trouxa por fazer fiado (se pa tem neguin me devendo até hoje), a traficar (o SENAI me proibiu de vender em 2007), a pensar em consumos alternativos (eu jurava que ia vender pão de mel com maconha) e, acima de tudo, mostrava que a vida nera fácil não e provavelmente jamais seria.

E talvez o mais lok0 do pão de mel foi prever que parte do meu futuro tava na publicidade, que eu jamais cogitei – muito pelo contrário, queria distância. “Eca, capitalismo”. Começou com os apelidos do cara que vendia pão de mel na escola e uma música que anunciava a presença desse cara: “El, el, el, pão de mel do Elimel!”. Tinha gente legal envolvido nisso que talvez nem pensasse sobre os pontos negativos, mas também tinha gente que não era assim tão legal e só queria caçoar, que eram os pontos negativos. O importante dessa fase é que eu nunca tive tanto cliente na vida! Bastava cantar junto com quem tava se divertindo ou fingir um descontentamento maior com quem tirava sarro para incentivá-los a falar ainda mais do pão de mel. Pronto, assim eu gerava awareness na escola inteira. Descobri o marketing.

De lá pra cá, as coisas aconteceram muito rápido. Pelo menos, depois do meu precioso tempo de vagabundo – que eu vou te falar, ele existiu e eu aproveitei bem ein. Nossa, como eu era um bom vagabundo. Tão bom vagabundo que eu descolava tudo que precisava, em qualquer canto da cidade, mesmo sendo vagabundo. Saudades. Mas essa não é uma crônica da vida errante, então vamos falar de quando o trabalho começou a afogar meu rolê e anunciar o prelúdio da vida independente.

Mano do céu, tava foda ficar acordado às 3h da madrugada com os amigos numa terça-feira, sabendo que dali 2 horas e meia o fretado estaria passando no Jardim Palos Verde buscar aqueles de uniforme e bota para suarem bastante tentando manter a furadeira levantada por várias horas na linha de produção. No caso, só eu tentando – os outros caras conseguiam fassin -, já olharam pro meu corpo fisiculturista? Só imagina esse mlk de 50kg ajudando a construir um ônibus. Sélokennn tio. Eight atrás de eight. Cuspe no chão, coçada no saco e piada machista com os brothers – que só viraram brothers quando espalharam que o vandalismo que estampava a capa do jornal tinha meu nome envolvido, além de eu conhecer muita mina gostosa.

Por que que eu não tava trabalhando no Habib’s mesmo? Ah é, porque o gerente mandou eu cortar o cabelo – que eu tinha acabado de cortar. Tudo bem, pelo menos na fábrica eu tinha um pratão enorme de comida no almoço e tava criando muque (ata). E tava tudo bem também porque depois que você descola como funciona o sistema dá pra se alegrar com a ilusão do funcionário que ludibria o patrão: fumantes tem 15 minutos ao ar livre (um maço por dia tá suave), os ônibus escolares são os menos supervisionados (dá pra tentar recuperar o sono a prestação), fingir caganeira te dá mais tempo sentado na privada (dá pra pagar outra parcela do sono atrasado) e doenças repentinas e possivelmente contagiosas é enfermaria na certa (dá pra ficar tomando soro deitado numa maca que te bonifica com meia hora dos deuses babando). Juro que no fundo eu era um excelente peão, até mesmo quando me colocaram para montar cadeirantes e que certa vez me quebrei todo quando uma pilha deles caiu em cima de mim porque alcoolteceu – ossos do ofício, né não?

Aliás, ossos do ofício é desses termos que eu não entendia muito bem quando lia a revista Seleção, mas depois passou a fazer total sentido. Como naquela vez que eu chamusquei uma mecha inteira do cabelo de uma mulher enquanto secava o cabelo dela no meu mais novíssimo emprego num salão de beleza situado na Oscar Freire. Que fase. Antes de parar ali fazer cabelo de subcelebridades e me entupir de formol de progressivas – e onde eu descobri que senhorinhas de alto escalão amavam minhas mãos lavando e massageando sua cabeças – já tinha trabalhado em outro salão de beleza, no meu primeiro emprego na cidade grande, que foi bem fácil conseguir, sendo uma espécie de cargo de publicitário, mesmo que nem faculdade em comunicação eu ainda tivesse (ah lá as senses marcias dizendo que é destino). E nesse primeiro salão de beleza, o que eu era ~publicitário~, qualquer montagem que eu fizesse no photoshop era motivo de comemoração. “Manja muito esse menino!”. Kkkkk sabem de nada inocentes, inclusive eu, que tava topando fazer logotipo por um salário de 600 reais, sem benefícios e sem carteira. Porém, rodeado por pessoas que torciam por mim e entenderam quando eu larguei as redes sociais para me tornar vendedor Chilli Beans. Até porque quem não quer ser vendedor Chilli Beans em shopping né minha gente?

De vendedor Chilli Beans para – o salão da Oscar Freire e depois para – o telemarketing, foi outro pulo, diferente mas que quase dava na mesma, ao menos em um eu não precisava olhar pra cara do cliente que eu precisava enganar. Porém, era tão insuportável quanto. E aí, senhoras e senhores, é que aconteceu o passo na vida desse que vos fala que levaria para um caminho sem volta (aqueles que dramatiza) por esse meio publicitário. Pode chorar as pitangas a vontade por não conseguir emprego na área de estudo – que vamos enfatizar que não foi a de publicidade – todavia, levanta e dá o brado de vitórias. ROOOUU. Porque o estágio em agência chegou.

Agências de publicidade tem esse lance de que tem todo tipo de gente, certo? Pelo menos era assim que me venderam a ideia no início da década, quando eu descobri que elas existiam. Somado ao fato de que eu estava disposto a brigar a nunca mais voltar a trabalhar em lugares que não aceitavam expressões visuais e individuais – como era no interior – e que eu realmente precisava de uma luz na área de comunicação, fiquei felizão ao ser chamado para uma entrevista de estágio em criação. E essa foi provavelmente a entrevista que eu mais meti o loko na vida. Naquela altura, eu já havia percebido que não dava para competir com os currículos de quem teve mil cursos e que resultados só apareciam quando você falava para as pessoas o que elas queriam ouvir. Meti o loko mesmo porque eu queria entrar em agência e aprender no trabalho, no dia a dia, todas as paradas que eu fazia lendo tutorial para cobrar 20 pila nos flyers de festas. Obviamente que meu teste no photoshop foi um horror, mas a sorte estava ao meu lado e eu soube que também tava rolando estágio para social media. E aahhh rapaz, quem não foi heavy user de orkut? Certeza que a vaga era urgente, pois eu saí de lá empregado.

Eu juro que me vejo hoje fazendo exatamente o que eu me disse que não podia de jeito nenhum acontecer. Me acomodar. Talvez a palavra acomodar traga um peso negativo, mas nele tá embutido mais realidade e segurança do que outra coisa. Naquele momento eu já sabia que quanto mais eu crescesse, mais difícil seria eu me jogar e tentar a carreira em cinema, que era o objetivo até então. Eu ia ao trabalho diariamente me forçando a lembrar que eu estava em mais um emprego como qualquer outro que eu tive antes e que em poucos anos estaria fazendo algo totalmente diferente… Como um assistente de direção, ou qualquer outra coisa na área audiovisual que eu não conhecia muito bem. Além, claro, que quando acabasse a faculdade eu teria que dar um rolê pelo mundo caronando, pois essa era a etapa fundamental para o ser humano que eu queria me tornar. A gente é tão imaturo, né? Não que eu veja meus sonhos de outrora com desdém, pois não mudaram. Eu só compreendi as variáveis dos obstáculos. Não é só difícil se imaginar dando um passo para trás, é doloroso perceber que você tem um padrão de vida baixíssimo e ainda assim ele está muito acima do que era ontem. Como abrir mão de novos confortos tão básicos?

E lá se foi, o tempo passou, as angústias de um jovem estudante só aumentaram e antes que eu pudesse perceber, estava iniciando uma carreira totalmente fora do esperado. Afinal, juntei a facilidade com a qual eu desempenhava determinadas funções com o gosto que eu estava adquirindo por um mundo totalmente novo. E que mundo interessante. Dados. Eu era BI quando estagiário de social media e nem sabia porque o próprio termo não era tão popular assim. Não imaginava que dali eu levava uma bagagem que abraçaria com gosto, além de amizade mais que significativa para os meus 20 e poucos.

Anos depois, cá estou, ainda trabalhando em agência de publicidade. Fazendo meu eu mirim retorcer na memória e toda classe ativista e revolucionária jogarem tomates. Onde já se viu ser contra o capitalismo e trabalhar com publicidade? Tsc, tsc, tsc… Pois é! Eu já me senti tão hipócrita e por tanto tempo, até perceber que hipocrisia é um desses cargos que todos carregam inevitavelmente, e que no meu caso de publicitário charlatão especificamente, de nada tinha de hipócrita, fosse o que eu pensasse ou achassem. Isso porque trabalhar com publicidade não é um emprego mais capitalista que qualquer outro que eu tive antes. Não era mais capitalista que o telemarketing, do que o vendedor de shopping, do que peão de fábrica… No fim das contas, tá todo mundo preso no mesmo sistema. E se dar conta disso é que faz surgir uma nova consciência em relação ao trabalho, ao que se faz dele e como você pode modificar para os seus próprios valores. Demorei um tempo, provavelmente bem menos que muita gente, mas cheguei a me sentir satisfeito e feliz profissionalmente – claro que não por momentos perenes porque a roda continua girando e não dá pra ficar parado -, e isso é de um valor imensurável para alguém que se aventurou em diversas áreas tentando “ganhar a vida” em uma vida totalmente nova.

Após enfrentar um dos desafios impostos pela sociedade moderna e iniciar uma carreira profissional, em uma área que eu não almejava, passando por 4 agências diferentes e chegando a um lugar como a Wieden+Kennedy, rodeado por pessoas com quem eu amo dividir os meus dias, sendo a maior parte do meu tempo, eu só penso que… Caralho, mesmo que a trajetória seja totalmente o inverso do que era o sonho lá atrás, o rolê foi lok0 demais, e meu deus do céu, que se passa na cabeça dos “adultos” por depositarem confiança em mim para desempenhar meu trabalho? HAHA Deve ser a mesma confiança que eu sinto em mim mesmo por saber que seja qual for o tabuleiro, estou sempre jogando. E que sempre haverão novas partidas, chances de se vencer e que em certos momentos podemos simplesmente dizer tchau e ir para outro cenário. Afinal, alguns sonhos não morrem e podem continuar nos movimentando, seja lá qual o momento que estivermos vivendo.

Mesmo sem talento para desenhar o Goku e o Majin Boo, dá-se um jeito. Mesmo que não apareça outro Lilo e Stitch pra desenhar, dá pra conhecer Harry Potter. No meu caso, os 20 reais que eu adquiri provavelmente viraram maços de cigarros anos depois. Dinheiro fica guardado por muito tempo na mão de muquirana. E Harry Potter dá pra comprar quando começa a sobrar dinheiro para cerveja pós-aulas.

Seja tentando se dar bem na escola ou trabalhando infinito para manter o emprego, essas paradas cansam. Tá na hora de aproveitar o ócio porque eu tô exausto e finalmente posso dizer: enfim, FÉRIAASSSS!!!!11111!!!111