Apesares de Agosto

Pensamentos sobre os apesares de agosto, questões que tem me atribulado e divagações sobre amizades nesses tempos.

Olá, amigo, tudo bem com você?

Por aqui, vou bem 🫠

Apesar de: ter quase caído em um golpe quando buscava casa para alugar em Cabo Frio; dos proprietários de outra casa terem cancelado comigo no dia da mudança; de ter caído de bicicleta e meu dedo indicador não levantar mais; meu primo ter falecido e não ter como ir me despedir no velório; meu amigo ter sido preso e a mãe dele pedido para eu testemunhar a seu favor; e das questões que me perturbaram no mês anterior ainda estarem vagando pela cabeça ocasionalmente: vida profissional e amizades.

Me esforçando para manter pensamentos positivos e não deixar a mente me levar para um buraco inútil, gosto de pensar que me sinto grato por: dois amigos terem percebido o quanto eu estava fraco das ideias e impediram que eu pagasse o valor do golpe; não ter caído de bicicleta na estrada de Arraial para Cabo Frio, onde o acidente poderia ter sido pior ou fatal; não ter conseguido uma casa para alugar, pode ter me poupado dinheiro para viajar para São Paulo, onde poderei depor pelo meu amigo, consolar sua mãe e ir ao aniversário do meu sobrinho, rever minha família.

Exceto a morte do meu primo - uma morte absurda, coração não aguentou pós-cirurgia de amputação de um dedo gangrenado pelo descuido de ter feito um corte não tratado sendo diabético -, não consigo pensar em nada positivo atrelado a isso. Esse primo era muito querido. Ele foi o primeiro da família a fazer um elogio do meu cabelo comprido, no modo dele. Guardo a lembrança de seu comportamento genuíno, importante num momento acostumado a ser ofendido. Gostaria de ter me despedido, considero velórios um ritual necessário para processar o luto.

Também é difícil pensar no meu amigo preso. Há anos que não o vejo, desde antes da pandemia. Na última vez, surtou comigo, ofendido por eu pedir para ele maneirar com os remédios. Na sequência, ele foi por um caminho que agravou a relação nociva com a mãe. Dei apoio a ela, e evitei contato com ele - não tinha condições mentais de ajudá-lo.

Os dois são pessoas com quem sou eternamente grato. Se ela me pedir para fazer algo, farei sem pensar duas vezes. Lhe dei férias no ano passado, antes de fechar minha pousada na praia. Ela reluzia naqueles dias. Dizia, cheia de orgulho, ser minha mãe postiça para todos os hóspedes. Enquanto seu filho biológico não podia descobrir seu endereço por questões de segurança.

Os dois me ajudaram na pior fase da minha vida. Conheci ele no trem voltando de uma festa em Mogi das Cruzes. Espalhei vômito no vagão e estava desacordado enquanto ele fazia piadas sobre meu estado para as “famosas” do rolê. Quando soube que eu morava numa casa invadida na Lapa e o bonde todo ia para lá depois do after para fazer mais after, passou a ser mais um frequentador e amigo de rolê. Nosso laço aprofundou quando recebi a ordem de despejo e ele me ofereceu sua casa para ficar, após alguns dias pulando de lugar em lugar, vagando sob os tetos alheios de São Paulo. Não existe ajuda maior do que dar teto e comida para alguém que não tem.

Penso em como ele está nesses dias de tanto frio em São Paulo. Na prisão só dão uma bermuda e uma camiseta. Provavelmente está descalço, se algum outro detento não lhe deu o que vestir. A comida não é o suficiente para a fome. Geralmente, quem alimenta e dá o que vestir são as famílias, e ele ainda não pôde receber visita da mãe com os itens que a direção listou para levar.

Já pensei em muita coisa pesada conforme acompanhei seus vícios ao longo dos anos, assim como vi coisas pesadas de outros conhecidos. Poderia ser eu. Imaginá-lo preso por tentativa de homicídio em flagrante no meio de uma psicose, isso eu nunca havia pensado. Ainda assim, tento ver um lado positivo: se conseguirmos convencer as autoridades de que ele precisa de cuidado psiquiátrico, talvez ele consiga se livrar dos remédios, talvez tenha um futuro de melhor qualidade. Talvez. Parece remoto, mas… Talvez.

Se não temos um mínimo de esperança de que o que vem pela frente vale a pena, já estamos mortos. Minha esperança é um pouco enguiçada. Funciona aos trancos. Anda de mãos dadas com a confiança. A qual, na metade desse ano, estava sem prumo. O ego abalado pela irrelevância profissional em que me meti, mais a falta de juízo e paciência para decifrar a infelicidade que sentia relacionada a não entender como me enxergava profissionalmente, como humano e como artista.

Abri mão da estabilidade e do conforto no mercado de trabalho em que eu tinha lá meu respeito (e que fazia muito bem, obrigado) para me aventurar, inicialmente, empreendendo em negócios consolidados e, posteriormente, planejando empreender em negócios pautados na minha própria arte - quando de arte ainda pouco sabia.

No meio disso, precisava de apoio, principalmente para acreditar em mim mesmo. Um apoio um pouco mais complexo, aquele apoio fácil de encontrar em amigos próximos e de longa data. Amigos íntimos. Ou de pessoas dispostas a terem conversas aprofundadas, em que se dá uma boa troca. Contudo, e aparentemente, a minha volta chovia superficialidade.

Minha relação com o termo amizade é conturbada, por vezes mal resolvida. Cheguei a vida adulta desconfiado de todas as pessoas, desacreditado de relações estáveis e longas. Fixado na ideia de ciclos curtos. Se estivesse preparado para ser descartado, não seria machucado. Apenas para reaprender a contradição sobre como absolutamente tudo nesse mundo é mais complexo do que aparenta ser e mais simples também. A ideia sobre amizades então foi reconfigurada.

Tenho muitos amigos e ainda faço novos amigos, mesmo quando não estou a fim. Poucos deles são íntimos, nenhum deles esteve comigo na maior parte das fases da minha vida, assim como eu não estive nas deles. Sei que não facilito. Aquele desejo sincero que às vezes temos de sumir, eu realmente cumpro. Já fiquei incomunicável sem saberem meu paradeiro diversas vezes.

Meu estilo de vida não permite estar presente nas vidas e nos cotidianos das pessoas, por mais queridas que sejam. Nos últimos anos morei em 3 hostels diferentes, fiz amizades que provavelmente nunca mais verei, e se abrir o Instagram agora vou me deparar com algum filho recém-nascido que não cheguei a ver de alguém que (ainda) considero amigo.

Assim como a questão profissional, que me tira o sono quando penso na minha falta de renda, andei pensando demais sobre estar enganado (novamente) sobre amizades. Talvez essa relação social tenha se alterado a ponto de realmente serem gasosas como prometiam os pensadores da modernidade. E como gás escapando pelos dedos é como andei me sentindo sobre a maioria dos relacionamentos fraternos que tenho.

Vi a BBC falando sobre como a falta de laços estáveis pode ter repercussões negativas para a saúde mental e física dos nômades digitais. Não me considero nômade digital, mas compreendo as camadas da reflexão aqui. Em alguma medida, sinto isso. Contudo, me parece o caminho fácil querer resolver o problema de saúde mental pelo lado nômade, e desconsiderar como o excesso de trabalho pode trazer repercussões negativas para os laços sociais com pessoas que não fazem parte da mesma bolha profissional.

Pela primeira vez, ninguém me deu parabéns presencialmente esse ano. Deu para contar nos dedos os que enviaram uma mensagem online. E não senti como se tivesse o direito de ficar triste pela ausência de amigos no meu/nosso atual contexto. Tampouco distribuo parabéns.

Posteriormente, decidi engajar no WhatsApp. Garantir presença, que meus amigos me vissem, me lessem, lembrassem de mim. Quem sabe depois ir para outras redes sociais com tal propósito. Em um grupo específico, de amigos da antiga bolha publicitária paulistana, me prontifiquei em participar de um assunto trazendo muito do que pensava a respeito, além de ter levantado um vasto material de conteúdo (pago, que tive acesso) no interesse deles. Fui sumariamente ignorado pela maioria, mesmo literalmente pedido afeto. Acontece, pessoal está ocupado, eu que sou o vagabundo de tempo em abundância. Eles nem devem ter lido o que mandei. Porém, logo na sequência, outro assunto surgiu e todos estavam preocupados declarando seus sentimentos pelo ocorrido. Inclusive aquele que nunca interage e, na última confraternização que estivemos juntos, me negou uma carona de poucos quarteirões na madrugada. Faz sentido ainda considerar essas pessoas com quem me importo como amigos? Será que elas me consideram como amigo?

Me abri sobre isso com alguém, integrante do mesmo grupo, e soube que a percepção não estava longe da minha. Relações gasosas, uma das reflexões. Também sentiu falta dos amigos no aniversário, desses mesmos amigos. Só foram os do atual emprego. O trabalho dita as amizades e alguns nem percebem. Lembrei de outro amigo, que contou que nesse ano apenas duas pessoas lhe deram parabéns. Não fui uma delas. Sou ou não sou seu amigo?

É nisso que chegamos então? A minha relação e percepção sobre amizade que está deturpada ou vivemos a época da ruína dos laços emocionais? Talvez os dois.

Sei que tenho um amigo prestes a ser condenado, o qual talvez nem me considera mais amigo, exceto caso eu tenha algo de valor para ele. Foi sempre assim, desde o primeiro instante. Ele não teria me ajudado se eu fosse apenas o garoto bêbado e vomitado jogado no vagão, mas me tornei valioso assim que soube que eu tinha uma casa a sua disposição. Assim como ele se tornou valioso com uma casa a disposição para mim.

Fosse qual fosse suas intenções, foi ele quem me tirou da situação mais desgraçada que passei na vida. Se não fosse por ele, sabe-se lá o que teria acontecido comigo. Talvez, por orgulho, eu não tivesse voltado para minha cidade natal com o rabo entre as pernas. Assim como por orgulho não voltei imediatamente. Preferi descolar um cinema, X-Men Primeira Classe, para não ter que pensar onde raios passaria a primeira noite sem casa.

Será que as amizades em tempos gasosos não funcionam de forma um pouco parecida? Talvez os laços apenas se sustentem conforme o valor da troca. Talvez tenha sido sempre assim, e eu só não tenha me dado conta do tamanho do meu valor.

Talvez seja só eu divagando à toa sobre o mesmo assunto que já me fez desconfiar de todos.

Talvez.

Mas saiba, amigo, que vou me esforçar para lembrar dos seus próximos aniversários. E que eu pretendo continuar indo bem, mesmo que bem 🫠

Um beijo.