Aftersun

Aftersun

Durante a primeira meia hora de Aftersun eu estava me perguntando: qualé a desse filme? Tipo, além das cores e frames bonitos com dois personagens cativantes. Já na segunda parte, já identificada a arte dançando com as nossas próprias memórias fragilizadas da vida, já compreendido do que se tratava essa história, eu não imaginava ser pego do jeito que fui quando subiu os créditos. De certa forma, acho que me forcei a menosprezar essa obra quando ela acabou. Em vão. Estava chorando e não podia fingir menor sensibilidade sobre essa história silenciosa que dialoga com nossas próprias relações paternas.

Dessa idade de Sophie, que nos sobra os fragmentos gravados no analógico/digital e mental, eu lembro do meu pai abatido (tal qual o Calum apagado e pelado na cama sem controle das emoções na virada do seu aniversário), buscando conforto sem saber pedir, e me abraçando bem forte tanto com os braços quanto com as pernas na cama em que eu dormia. Não tenho uma gravação me despedindo dele, mas por mais irreal que seja, tenho nítidas lembranças cinematográficas da última vez que eu gritei que o amava, que me apunhalam há cerca de 20 anos.

Logo eu vou ter a idade que ele tinha e, embora eu já consiga viver meus aniversários sem deixar a tristeza me assolar, sei que vou sempre carregar essas memórias fraturadas comigo, até depois da idade de quando nos vimos pela última vez, provavelmente até depois da idade com que ele se matou.

E é por isso que eu chorei nos créditos, por perceber que mesmo que em nenhum momento seja falado ou mostrado, é um filme que retrata a dor entorno do suicida. Uma dor que eu conheço bem, tanto de fora pra dentro quanto de dentro pra fora. É a lembrança de um menino se debruçando na janela do carro em movimento pra gritar que amava o pai que nunca mais iria ver.