O que você quer ser quando crescer?

— Astronauta.
— Cientista.
— Modelo.
— Bombeiro.
— Atriz…
— LOUCO!
— Louco?!
— Sim, louco!
— Que isso garoto, do que você tá falando?
— Já viu o cara da Glória? O mané que pedala toda manhã pelo Jardim Palos Verde gritando “GLÓRIA, GLÓRIA, GLÓRIA”. Quero ser que nem ele.
— Que mané glória o que. Aquele mano tomou chá de fita e nunca voltou.
— Ai que horror…
— Não foi chá de fita, foi chá de lírio. É chá de lírio que não volta.
— Mentira, foi de cogumelo!
— Chá de cogumelo? Tá doido? Cogumelo faz essas coisas não! Foi de fita sim, também ouvi isso.
— Se fosse de fita já tava morto, seus nóias.
— Não importa o que ele tomou, o que importa é que ele é louco!
— E tu quer ficar igual ele?
— Sim.
— Ai credo… Pra quê? Quer sair gritando “glória” por aí?
— Por que que ele grita “glória” por aí?
— Ele é crente.
— Não mano, Glória era a mãe dele.
— Quê?!
— É, ela morreu e…
— Foi atropelada.
— Não!
— Que atropelada nada, ela teve câncer.
— Não importa do que ela morreu.
— Ela morreu e ele fica gritando o nome dela por aí?
— Sim.
— Sim.
— É o que parece.
— Que cara louco.
— Quero ser que nem ele.
— Mano…
— Tu quer pedalar pela cidade gritando pela sua mãe por aí?
— Não necessariamente, só ficar louco mesmo. Tanto faz sair gritando, se pa nem precisa gritar.
— Tu quer ser igual o Radinho então.
— Radinho?
— Quem?
— É, o outro mano louco do JPV.
— JPV só tem louco?
— Lá tem mó cota de nego doido.
— Ele grita “radinho” pedalando?
— Ele grita por ninguém não.
— Ele é louco por quê?
— Acho que tomou chá de fita e não voltou…
— Não, porra, qual que é a loucura dele? Por que que vocês acham ele louco?
— O mano sobe e desce a Brasil Blasi com um rádio enorme em cima do ombro todo dia.
— Que que ele escuta?
— As vozes na cabeça dele.
— Escuta nada. O rádio nunca tá ligado.
— As veiz ele canta umas coisa que nem dá pra entender direito. As veiz faz uns barulho esquisito com a boca, só baba escorrendo…
— Beat choques que chama.
— Beat box seu burro!
— É beat choques caralho! Meu primo faz isso aí e nem baba fazendo.
— Tá, tá, mas não importa… Alguma coisa ele escuta.
— As voz na cabeça dele, cantam alguma merda pra ele.
— E tu quer ficar igual ele?
— Eu quero.
— Tu quer ser doido?
— Varrido.
— Pra que maluco?
— Tu já é doido, não percebeu? Só fala bosta.
— Vocês já chaparam na vida de vocês?
— Uma vez eu fumei e fiquei uma semana chapado. Foi horrível.
— Eu tenho um primo que fumou e nunca mais voltou…
— Cala boca seu zé ruela, é chá de fita que não volta.
— Igual ao mano do Glória.
— Foi lírio…
— Não importa!
— Tu é retardado mano…
— Explica essa porra, por que tu que ficar doido que nem esses cara?
— Então, quando vocês chaparam não foi dahora? Imagina o que se passa na cabeça deles, que brisa é essa que eles estão. Aposto que é muito mais louco e diferente e forte que a melhor brisa que vocês já tiveram na vida.
— Cê tá maluco.
— Vai ver os mano tão louco pra voltar pra vida real e não conseguem.
— Eu duvido…
— Nossa imagina o que se passa lá dentro da caixola. Que que dá na telha pra sair fazendo essas coisa esquisita na rua. Os cara fala nada com nada, não tem amigo, tão sempre tudo fodido, sujo…
— Exatamente isso! Pra chegar a esse ponto alguma coisa muito louca tá acontecendo lá com eles. Eu quero isso.
— Como assim mano?
— Tu é retardado.
— Só um pouquinho, um dia vou ser mais.
— Tu quer ficar louco a ponto de nunca mais voltar?
— Se os cara for atropelado, aposto que não sentem nada e ainda morre com sorriso no rosto.
— Sim! Exatamente! Eu quero isso!
— Nossa, irmão, que vontade de dar um soco na sua cara de tanta bosta que fala.
— Então toma chá de cogumelo então mano que cê daí não volta.
— Cala boca seu burro, todo mundo nessa cidade come cogumelo e todo mundo voltou.
— É chá de lírio que não volta, tô falando…
— Não importa! Um dia eu tomo todos de uma vez. Fumo uma tora de 3 quilos. Faço chá de fita, de cogumelo, de lírio e ainda baforo gaz de cozinha e das buzinas de carnaval até acabar o estoque do mercado.
— hahahahah
— hahahaha que nada ve.
— Tu é muito trouxa.
— Vai ficar todo sequelado, se não morrer.
— Bom, ao menos tá mais fácil de você chegar a ser quem quer ser do que a gente.
— Se tu ficar louco varrido mesmo eu vou contar pra todo mundo que era teu amigo.
— Eu vou falar, tá vendo aquele mano ali? Aquele mano ali não curtia a realidade e foi atrás de viver numa chapação paralela.
— Siiiim, pode falar, é exatamente isso.
— Que horror…
— Toma chá de cogumel…
— Cala boca caralho!